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Rede de Ódio

(Sala samobójców. Hejter, POL, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Jan Komasa
  • Roteiro: Mateusz Pacewicz
  • Elenco: Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Agata Kulesza, Maciej Stuhr
  • Duração: 135 minutos
  • Nota:

Escondido por trás de uma sinopse sensacionalista (embora acertada), o que Rede de Ódio nos mostra não é apenas uma organização perigosa de disseminação profissional de fake news. Isso é o que lhe dará relevância momentânea, será o motivo pelo qual o algoritmo da Netflix irá indicá-lo a você e esse também será seu material de sedução junto a mídia. Paralelo a um dos temas mais pertinentes da atualidade, caminha um estudo de personagem complexo por não conseguir filtrar com exato as motivações de seu enfoque. Quanto mais se assiste, menores são as certezas acerca de Tomek Giemza, um jovem polonês que tem seus propósitos atendendo a diversas frentes diferentes, muitas opositoras umas das outras.

Uma espécie de Tom Ripley moderno, Giemza tem em comum com o personagem de Patricia Highsmith a amoralidade como uma das principais características. Ambos partiram de um envolvimento amoroso não-correspondido para tomar iniciativas escusas e crimes elaborados para apagar seus rastros, mas enquanto Ripley se mostrava fiel a um sentimento que provocou sua ruína, o personagem do roteirista Mateusz Pacewicz passeia por meandros ainda mais desconhecidos da alma humana, e a qualidade do relevo ressaltado pelo roteiro aprimora um trabalho coletivo de qualidade, que vai além de exclusivamente o trabalho com o protagonista.

Rede de Ódio, filme polonês disponível na Netflix

O diretor Jan Komasa (diretor do indicado ao Oscar Corpus Christi) mantém essa parceria com Pacewicz em mais um aprofundado painel sobre um desajustado emocional complexificando toda a argamassa a sua volta, que acaba por contribuir para o nascimento de um sociopata do nosso tempo – um jovem capaz de mentir com tamanha desenvoltura e facilidade que os limites para o crédito em si começam a perder a validade. Munido de forte emoção que estampa no rosto marcado, Maciej Musialowski tem uma oportunidade rara em nunca revelar além do que uma esfinge permite e ao mesmo tempo conserva o máximo em emoção e comprometimento sem perder o desconhecido de seu semblante.

Imageticamente, Rede de Ódio tem uma sofisticação que não funciona como difusora de ambientação, mas principalmente de como tratar as imagens que produz. Ao seguir o “ataque” do protagonista à sua vítima em potencial dentro de uma boate, a câmera o trata como uma serpente prestes a dar o bote, se movimentando como tal de maneira sedutora – no qual Kylie Minogue ajuda muito a compor esse painel. O assustador clímax do filme, praticamente dirigido em um plano sequência de difícil execução, aponta para uma mudança constante de perspectiva sem realizar o corte, dando mobilidade e multiplicidade de ação a personagens que se antagonizam. O fotógrafo Radek Ladczuk (de Babadook) consegue traduzir em luz e cores a atmosfera opressora onde o protagonista se afunda por escolha própria.

Rede de Ódio, filme polonês disponível na Netflix

Ainda que Rede de Ódio, a priori, não esteja desenhando uma narrativa necessariamente original, e que seus códigos levem a uma cadeia de eventos esperada, a qualidade empregada em cada aspecto da produção já citados é tão evidente, que o espectador é seduzido inadvertidamente. O filme segue uma lógica já experimentada até quando lega ao personagem central os desdobramentos que acabamos por acompanhar; no seu ápice, Tomek percebe que mesmo sendo reconhecido ante a sociedade, seu lugar dentro de qualquer recorte social será o da eterna subserviência.

“Hater”, palavra destacada no título original da produção, em tese fosse suficientemente reveladora sobre essa persona multifacetada, mas tendo em vista que essa expressão está amplamente popularizada, a narrativa mostra que tal motivação de batismo da obra teria também multifunções, incluindo o sarcasmo. Com a gravidade de situações que o “haterismo” vem provocando em massa nas redes sociais, o filme não é didático na hora de compartimentar sua narrativa, seus personagens e a ascensão dos discursos de ódio, que nascem a partir da fabricação em massa, mas residem também de diferentes formas em diferentes tipos de seres, com amplitude de motivações e tratando seus temas sem qualquer tipo de leviandade.

Um Grande Momento
“In Your Eyes”

Ver “Rastro de Ódio” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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