Crítica | Outras metragens

Rei Max

Liberdade para as borboletas

(King Max, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Adèle Vincenti-Crasson
  • Roteiro: Adèle Vincenti-Crasson
  • Elenco: Julie Furton, Jay Des Adelphes, Maude Chaillou, Ambroise, Claire Guillon, Sophie Froissard, Emmanuel Ménard
  • Duração: 21 minutos

Apesar de não apresentar imagens inéditas ou material narrativo original, o que vemos em Rei Max é a certeza de um alto nível de produção e de compreensão de suas capacidades na hora de contar uma história que não é corriqueiro, como se qualquer filme LGBTQIA+ produzido fosse capaz das coisas que Adèle Vincenti-Crasson mostra e discute, que não pretende realizar algo hercúleo, mas que se interessa dos seus personagens. Isso tem acontecido como uma espécie de espelhamento do For Rainbow para outros títulos que vêm sendo apresentados no evento, e traduz a ausência de competição à altura, ainda que por enquanto.

Investigando o coming of age não convencional de uma adolescente francesa, o filme cresce à medida que sua protagonista abraça a busca pela própria identidade. Maximilienne se esconde do espelho, esconde o seio de si e dos outros, e se sente cada vez menor, mais enclausurada por escolha própria. Todas as cenas onde a promissora Max é apresentada a algo novo, vemos um pedaço da casca da personagem se desprender, deixando-a mais próxima de um mundo que pode ensiná-la todos os dias. A personagem de pouco contato oral acaba deixando seu fascínio através de suas ações.

King Max
La fémis

Rei Max prescinde de diálogos e ambiciona o gesto que comunica, deixando o verbo de lado por uma representação mais alegórica de suas inquietações. Sua protagonista é impulsionada pelas ações, pelo que realiza enquanto tipo; nesse sentido, todo o filme é de muitas formas uma ideia onde o Cinema fala muito mais forte que a narrativa. Todo seu tensionamento está ligado a arte e ao artifício, seja no ato de colocar uma faixa nos próprios seios, seja na maquiagem que transforma sua sexualidade. Uma leitura rápida vê Max chegar até a arte, em corporificação, em luz e em entrega, e assim descobrir sua verdade.

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A direção criativa e exuberante marca essa característica de maneira factual, com cada molde de plano representando uma passagem de fase no desabrochar futurista de uma menina cujo rótulo ainda está se encaminhando para chegar; será que ela o quer, o deseja, ou ela abrirá mão disso? A autora a deixa livre para caminhar do soturno de sua casa até o colorido de uma boate Shangri-lá, onde ela se reinventa, se questiona, se sabota, até explodir em emoção e novas camadas de sabedoria. Essa “troca de roupas” sutil nos permite acompanhar essa jornada através de toda uma representação cênica, indo da direção de arte até a fotografia.

Buscando os olhos e o corpo muito mais que a voz, o filme posiciona sua protagonista como alguém que se transmuta em cena, como uma lagarta que vira borboleta. Julie Furton é uma peça importante de êxito de King Max, porque é o corpo dela que está o tempo todo sentindo, vibrando. Através de sua aura, naquele templo de aparente luxúria, uma liturgia de transformação é criada, e isso tudo vaza da tela pelo olhar desbravador da atriz. Sem ambicionar a perfeição, o curta francês alcança um lugar de reconhecimento e delicada afirmação social, olhando sempre para o futuro.

Um grande momento
O choro de Max

O crítico viajou para o 15º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura de Diversidade Sexual e de Gênero a convite do evento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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