Crítica | Streaming

Rocketman

(Rocketman, GBR/EUA/CAN, 2019)
Drama
Direção: Dexter Fletcher
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Connor, Charlie Rowe
Roteiro: Lee Hall
Duração: 121 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

“The dream alone is always in your hands
If that don’t fill the boy and build the man
A heart has many secrets, so I’m told
Through the years, a theory can grow cold
I’m up to be the king, it’s gotten clear
The voice inside my head is the one I hear
Singing, I’m gonna love me again…”

A história da vida de um prodígio que criou algumas das mais belas canções pop do século 20 ao piano. A trajetória do tímido garoto fofo Reginald Dwight até o fenômeno Elton John, o rockstar que tem a sua vida tornada em filme – produzido pelo atual marido dele, David Furnish – é esfuziante e realista. Claro que ter o próprio por trás da obra, dirigida por Dexter Fletcher (o mesmo que assumiu o barco desgovernado Bohemian Rhapsody após a retirada de Brian Synger do projeto), é de se desconfiar, já que a versão dos fatos segue obrigatoriamente a visão do artista, mas o que se vê na tela não é uma cinebiografia convencional e insípida.

Além da escalação acertada do astro Taron Egerton para viver o autor de “Rocketman”, a narrativa vai conectando as músicas essenciais para contar a história de um homem que lutou muito para ser quem sempre soube que seria. Gay, desprezado pelos pais e incerto da sua capacidade de despertar o amor verdadeiro, ele encontra sua alma gêmea no letrista Bernie Taupin – e o filme retrata isso com generosidade. A parceria profissional e afetiva de mais de 5 décadas entre Elton e Taupin inclusive deverá ser celebrada com um Oscar inédito para a dupla pela canção “(I’m gonna) Love me again”, escrita especialmente para Rocketman.

Elton John não quis que o ator escolhido para interpretá-lo fosse dublado com sua voz original por isso apostou no talento vocal de Taron, que desenvolveu uma autoconfiança gigante com a parceria que formou com Elton e o produtor musical Giles Martin. O relato surgiu em entrevista ao programa do radialista Zane Lowe na Apple Music, onde ele conta que viu a performance de Taron cantando uma música sua (“I Still Standing”) na animação Sing e ficou impressionado. Martin foi o responsável por reinterpretar e reimaginar os hits de Elton John para serem cantados pelo ator e se encaixarem na narrativa do filme. E o papel do produtor é fundamental para dar consistência e ritmo a obra, que consegue ultrapassar maiores problemas de roteiro – as personagens dos pais de Elton, bem como do empresário John Reid, são unidimensionais e tornados vilões da história – e fluir através das canções que enumeram momentos bons e ruins da vida e da carreira do biografado.

A escolha por não amenizar aspectos da vida privada para encaixar o filme numa classificação indicativa mais baixa se mostrou acertada, não abrindo espaço ainda para uma versão definitiva do que seria a vida queer de um astro (ainda se espera a cinebiografia de David Bowie, apesar de Velvet Goldmine ser uma brilhante versão não-autorizada), mas ainda assim entretendo e emocionando. Elton John está presente na história de muita gente e fazer um pouco parte da dele, espiar sua vida entre momentos como a composição de “Your Song” após o café, no piano de casa, com a letra presenteada pelo amigo Taupin e atraindo a atenção da quase sempre distante mãe (vivida por Bryce Dallas-Howard), para o nascimento do que vem a ser uma das coisas mais geniais e simples da história da música.

Melodiosamente, se dá uma volta no carrossel – uma das sequências mais incríveis com um número musical no Parque de Diversões – ouvindo “Crocodile Rock” ou pegando uma carona no foguete com uma “Tiny Dancer”, mergulhando nas próprias memórias para emergir mais certo do que nunca de que, viveu intensamente. Mais do que veículo para massagear o ego de Sir Elton John, Rocketman justifica totalmente a sua existência por não trazer uma visão incompleta ou torpe apesar de extremamente pessoal.

Além do ponto de vista escolhido, que traz uma versão honesta e não única da vida de uma pessoa pública, o filme ainda tem qualidades estéticas – edição, fotografia, design de produção, captação de som, figurino, tudo está em harmonia e num nível de excelência – devendo ter obtido mais reconhecimento artístico para além do prêmio de melhor ator de Comédia ou Musical no Globo de Ouro de Taron. Sendo ele um dos únicos atores na história recente a receber o prêmio por realmente cantar – Rami Malek, por exemplo, foi dublado em Bohemian Rhapsody. Porém, o testamento da história o fará justiça, quem sabe tornando Rocketman um filme cult.

Um Grande Momento:
A overdose salpicada de surrealismo na piscina.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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