Em sua 20ª edição a Mostra de Tiradentes voltou o seus olhos para a questão da representatividade feminina no cinema. Para começar, decidiu homenagear duas grandes artistas brasileiras: as atrizes e diretoras Helena Ignez e Leandra Leal. Apesar de muito diferentes em estilo de atuação e direção, ambas foram responsáveis por dar vida à icônica personagem Sônia Silk.

A prostituta que sonhava em ser cantora da Rádio Nacional no filme de 1970 Copacabana Mon Amour, dirigido pelo marido de Helena, Rogério Sganzerla, deu nome a uma homenagem: a série de filmes Operação Sonia Silk, dirigida por Bruno Safadi e Ricardo Pretti e protagonizada por Leandra Leal.

Esta conexão, mesmo que não tão óbvia, foi o que levou as duas juntas ao palco do Cine Tenda para receber cada uma o seu Troféu Barroco. Enquanto Leandra recebeu a homenagem das mãos de sua mãe, ngela Leal; Helena Ignez recebeu de suas filhas Djin e Sinai Sganzerla.

Após a premiação, foi exibido o longa-metragem Divinas Divas. Dirigido por Leandra Leal, o documentário tem um viés muito pessoal para a realizadora ao retratar um grupo de famosas travestis voltando ao palco do teatro de seu avô anos depois de se apresentarem ali.

No dia seguinte, tanto Leandra quanto Helena Ignez ganharam uma mesa de debates sobre a carreira delas, com a presença do crítico de cinema Daniel Schenker, do cineasta Murilo Salles e do jornalista, pesquisador e crítico de cinema e música Ruy Gardnier. Schenker falou sobre a carreira de Leandra Leal e Gardnier, de Helena Ignez. Já Murilo Salles falou sobre sua experiência em trabalhar com Leandra no filme Nome Próprio. Salles ainda levantou uma questão sobre a recepção da crítica na época de seu lançamento.

Segundo o diretor, Nome Próprio é um filme extremamente feminino. Para Murilo, o fato de a crítica brasileira ser composta majoritariamente por homens, causou um problema com a recepção, já que o olhar destinado ao filme era, naturalmente, masculino. “A personagem de Leandra virou uma histérica qualquer”, afirmou.

Reconhecimento

Mesmo com a fala do diretor, a falta de mulheres, além das homenageadas, na mesa de debate chamou a atenção da plateia. A questão foi levantada, destacando toda relevância e competência dos nomes convidados, mas lembrando que há várias mulheres, críticas e acadêmicas, que poderiam estar ali. O desconforto no ambiente fez com que vários homens participassem do debate, mas as homenageadas concordaram com a primeira intervenção.

Apesar do deslize, porém, é notório o desejo da Mostra de Tiradentes, considerada até então como uma das mais machistas do país, em se tornar uma mostra mais representativa no que diz respeito ao gênero. Além do tema central reconhecer a necessidade de se falar sobre uma maior representatividade, há um bom número de filmes realizados por mulheres, o número de críticas credenciadas pelo festival aumentou consideravelmente e separou-se inclusive uma mesa de debate para tratar a questão.

Como a Mostra Tiradentes é aquela que abre o calendário dos festivais, que esse seja o caminho para a desconstrução do que hoje está estabelecido e que chegue a uma maior diversidade, e que ela não seja apenas ligada ao gênero.