Crítica | Streaming

Sozinha

O silenciamento de todas as horas

(Alone, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: John Hyams
  • Roteiro: Mattias Olsson
  • Elenco: Jules Willcox, Marc Menchaca, Anthony Heald, Jonathan Rosenthal
  • Duração: 98 minutos

A juventude cinéfila vulgar elegeu John Hyams um moço bem legal mesmo depois que ele reabriu a franquia Soldado Universal com dois longas; vem sendo desde então exaltado, como também o são figuras como Mark Neveldine e Brian Taylor (de Gamer) e Chad Stahelski (o homem por trás de John Wick). Mas é ao chegar a esse novo Sozinha, estreia da Premiere Telecine, que o filho do igualmente vulgar Peter Hyams (de Timecop e Fim dos Dias) avança algumas casas rumo a uma celebração de sua autoralidade que o afaste de uma “estética brucutu”, sem afastá-lo da visceralidade, urgência e fatalismo que o moldaram, ainda que em roupagem sutil.

O cinema vulgar se notabilizou por uma celebração do cinema de gênero por parte de seus autores, sem escolha de formação, estratosfera, alcance ou reconhecimento; cabem no vulgarismo de Clint Eastwood a irmãos Farrelly, passando por Abel Ferrara, Kathryn Bigelow e Michael Mann. O que o Hyams filho notabilizou e aqui volta a acessar é um apreço pela profundidade de campo, pela construção de planos dentro de sua funcionalidade sem perder o bom gosto, e um refinamento do que outra pessoas poderiam ver como menor, tais como a tensão, os códigos do thriller e a forma fluida como passear entre a informalidade do frontal e a sofisticação do popular.

Sair do universo masculino para um escopo onde explore a toxicidade desse mesmo universo é uma novidade para Hyams, onde ele se sai relativamente bem, incluindo uma cena final recheada de sororidade; isso saindo de uma produção onde apenas uma mulher esteja em cena, é uma surpresa saudável de solução de roteiro, que é escrito por um sueco — Mattias Olsson, que escreveu e dirigiu o original, aqui revisitado. A chave para investigar esse universo que o diretor ainda não tinha explorado passa pela empatia, ao mesmo tempo em que o gênero fala por si. Não estamos diante de uma ideia inovadora, mas a forma como seus autores dispõem em campo os códigos que acionam os temores mais básicos (e assertivos) para o universo feminino — o contato através das janelas entreabertas, por exemplo — nos arremessa imediatamente para uma realidade tão implacável quanto revoltante.

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Sozinha (2020)
© Magnet Releasing

Nessa versão, chama atenção como a autoralidade de seu diretor tenha encontrado um material onde esteja familiarizado, com exploração do espaço cênico natural, ocupação desse mesmo espaço de maneira efetiva pelos corpos ali dispostos, e manutenção de um lugar de observação ao deslocar sua perspectiva particular. Esses elementos podem até já ter uma disposição prévia, mas o americano recria sua estrutura alimentando o próprio cinema de valores estéticos que são caros a ele; o cinema de gênero não é uma propriedade estadunidense, mas a forma como Hyams aplica seu olhar dentro de uma fôrma previamente filmada é mesmo sua especificidade, para capturar um cinema verdadeiramente seu.

Existe uma óbvia inspiração no Encurralado de Steven Spielberg, assim como todos os filmes que utilizaram esse dispositivo do “stalker rodoviário”, mas a diferença entre esse e todos os seus congêneres é a ironia inicial com o objeto pretendido — o carro perseguidor — e sua rápida e posterior revelação de identidade. Não há nada metafórico sobre a relação de terror entre homem e máquina, mas sim sobre a insidiosa relação entre homens e mulheres, permeada por assédio, violência e apagamento de ações; Jessica é sistematicamente incomodada, assediada e violentada por “um homem que não gostou de ouvir não”, ou seja, o tradicional motivo pelos casos de feminicídio que infelizmente cresceram exponencialmente durante a pandemia.

A obra de Hyams é, por si só, definidora do que veremos em Sozinha — um cinema direto, sem subterfúgios e acessível, sem perder o requinte estético. Aqui, a sensação de terror e perda é reforçado continuamente pelo aprisionamento da imagem de Jules Willcox, que submerge em meio à copa das árvores, ao rio selvagem e à escuridão da noite. Sua figura, que sai da fragilidade a uma fúria crescente, é o exemplo imagético da ressurreição das figuras femininas diante do horror que as assola diariamente. Passando como um trator em cima do igualmente surpreendente Fúria Incontrolável, Sozinha é cinema de gênero com muitas colheres representativas a mais — de gêneros, em ambos os casos da definição da expressão.

PS: Onze Minutos, de Hilda Lopes Pontes, é material imagético e narrativo complementar.

Um grande momento
Poderiam ser muitos, porém o clímax — da corrida pela floresta ao helicóptero, passando pelo telefonema.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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