Crítica | Cinema

Space Jam: Um Novo Legado

(Space Jam: A New Legacy, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Malcolm D. Lee
  • Roteiro: Juel Taylor, Tony Rettenmaier, Keenan Coogler, Terence Nance, Jesse Gordon, Celeste Ballard
  • Elenco: LeBron James, Don Cheadle, Cedric Joe, Khris Davis, Sonequa Martin-Green, Ceyair J Wright
  • Duração: 115 minutos

O cinema tem dessas manias: tornar um grande astro do esporte numa estrela em seus próprios filmes. Mas o problema é que quase sempre dá errado… Nem todos tem o carisma e o tal do “star quality” para render bilheteria e convencer, mesmo quando o talento dramático não é grande — na realidade, The Rock saiu do universo do MMA pra ser tudo isso e mais um pouco, transitando da comédia aos filmes de ação e aventura. E aí chega LeBron James em Space Jam: Um Novo Legado. Apesar de já ter aparecido na série cultuada Eu, A Patroa e as Crianças e feito uma participação charmosa em Descompensada, King James, um dos principais atletas do esporte mundial não é rei, pelo menos não nos filmes.

Mas a sem-gracice dessa continuação, 25 anos depois, de Space Jam: O Jogo do Século torna injustificada a sua existência. Porque o filme original tinha o maior jogador de basquete da história, o dono da camisa 23 do Chicago Bulls que tampouco era ator. Um Novo Legado não tem um pingo de charme em suas quase duas horas de duração. O fiapo de roteiro não seria de todo ruim se houvesse alguma magia para suspender a descrença e se deixar levar pela linguagem advinda dos cartoons e do universo Looney Tunes. Claro que entre um Space Jam e Uma Cilada Para Roger Rabbit existe um abismo ou vários buracos desenhados e colocados em fileira, mas esse novo filme não aposta quase nada no encanto que advém da interação entre o personagem/astro em live action e os personagens animados.

Space Jam: Um Novo Legado
Divulgação / Warner Bros. Pictures

Um Novo Legado gasta primeiro ato apresentando o conflito entre LeBron e seu filho caçula, que não quer jogar basquete, mas sim ser um desenvolvedor de games; depois o arquivilão na figura de Don Cheadle, que vive um algoritmo chamado Al G Ritmo, que quer fama e poder para além da virtualidade onde vive — o Serviverso ou o servidor da Warner.

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Aí é aquela história já manjada de resolver o dilema na quadra de basquete. Mas diferente de Space Jam: O Jogo do Século, onde Michael Jordan ensina os personagens amalucados a fazerem jogadas usando seus “talentos especiais” e tendo pensamento de equipe para desafiar o time dos invasores intergaláticos que roubaram o talento de outros grandes astros da NBA como Charles Barkley, em Um Novo Legado, Marv só faz uma brevíssima aparição e o time (chamado de Esquadrão da Pesada) é formado por avatares de astros da NBA e WNBA modificados pelo Dom no videogame: Anthony Davis, Damian Lillard, Klay Thompson, Nneka Ogwumike e Diana Taurasi.

Space Jam: Um Novo Legado
Divulgação / Warner Bros. Pictures

“Você nunca deixa eu ser eu mesmo”

O descompasso do filme é narrativo e também técnico, já que na forma começa em live-action depois vira animação 2D — O próprio LeBron também em 2D — e, quando vai iniciar o jogo, os Looney Tunes passam por um upgrade e ficam em 3D. Claro que é bem feito e não um acinte como o filme do Sonic, mas não são transições bem feitas entre os estilos animados. Outra questão é que o tom de Um Novo Legado quer ser edificante e ter aquela moral da reconciliação entre pai e filho, reconhecendo que o caminho que se quer seguir não é o que se havia traçado, mas sim o que traz felicidade. Mas a mão do diretor Malcom D. Lee ou a mão invisível da Warner pesam demais.

O filme com Michael Jordan era divertido por não se levar jamais a sério; talvez um dos poucos momentos engraçados do atual seja quando Frajola diz ter encontrado Air Jordan e na realidade é o ator Michael B. Jordan.

Space Jam: Um Novo Legado
Divulgação / Warner Bros. Pictures

Abrindo um parênteses aqui e resumindo (ou tentando), esse Space Jam: Um Novo Legado nada mais é do que uma desculpa da WarnerMedia — conglomerado que reúne AT&T, Warner Bros, DC, Discovery, HBO — para a celebrar sua história, colocando LeBron e os Looney Tunes diretamente dentro dos universos de seus filmes mais famosos e celebrados. Tem Casablanca, Harry Potter, Game Of Thrones, Austin Powers, Batman, Matrix e Mad Max: Estrada da Fúria, ainda cruzando com Rick & Morty de passagem. Inclusive, olhar para a plateia durante a partida e identificar os personagens (Kong, Voldemort, Alex DeLarge e os drooguies, a Bruxa do Oeste e os macacos alados, o Pennywise, a mistery machine da gangue do Scooby Doo estacionada ao lado do carro da Penélope Charmosa e de outros personagens de Hannah-Barbera) é mais divertido que acompanhar o jogo em si.

Em entrevista ao podcast Smartless para divulgar Space Jam, LeBron contou que quis que o prólogo do filme trouxesse um pouco da sua própria história na infância e com o esporte, e também sobre sua inspiração em Will Smith e a vontade de estrelar filmes de ação para inspirar novas gerações: “Quando eu era criança, minha inspiração não vinha apenas de figuras do esporte, mas também de programas de TV e séries que eu assistia. Sempre achei que gostaria de ser o príncipe de Bel Air e gostaria de ser o príncipe de Akron, Ohio por isso eu amo essa história.”

Space Jam: Um Novo Legado
Divulgação / Warner Bros. Pictures

É maldade dizer que um carregamento de explosivos da ACME poderiam ser lançados contra LeBron James — dentro do universo dos cartoons, lógico — para que ele possa desistir da ideia de se lançar de fato numa carreira cinematográfica. Mas a verdade é que Space Jam: Um Novo Legado não é ruim por causa de LeBron e sim apesar dele.

E isso é tudo, pessoal! Realmente muito pouco para um filme, mais eficaz seria se fosse uma campanha publicitária para lançar a HBO Max.

Um grande momento
Lola e as Amazonas

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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