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Stillwater – Em Busca da Verdade

A queda do ordinário

(Stillwater, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tom McCarthy
  • Roteiro: Tom McCarthy, Marcus Hinchey, Thomas Bidegain, Noé Debré
  • Elenco: Matt Damon, Abigail Breslin, Camille Cottin, Lilou Siauvaud, Idir Azougli, Anne Le Ny, Moussa Maaskri, William Nadylam, Naidra Ayadi, Kyle Jacob, Deanna Dunagan
  • Duração: 139 minutos

Tom McCarthy se notabilizou por uma má reputação injusta entre os cinéfilos e algum traço da crítica mais empedernida. Diz-se que seus filmes não empregam personalidade, de que faltaria algum traço que os incumbisse de uma autoralidade mais demarcada. Trocando em miúdos, e em linguagem leiga, suas produções “não seriam dirigidas”, em uma alusão a uma possível acusação de burocracia. Desconheço tais acusações como tendo alguma validade, no que me parece uma depreciação do cinema clássico-narrativo, como se a esse olhar cinematográfico não houvesse espaço para a elaboração estética. Stillwater – Em Busca da Verdade (esses subtítulos nacionais desumanizantes e imbecis ainda o empurra ainda mais nessa direção) é mais uma prova contrária a esse ranço injusto a que impuseram ao vencedor do Oscar por Spotlight, esse sendo o caso máximo dessas acusações infundadas. 

O espaço que compõe a criação de seus heróis, seja um grupo de abnegados jornalistas, um sapateiro falido, um professor de meia idade, ou aqui, um militar reformado lutando por uma justiça para sua filha que ninguém acredita, já é por si só de profunda coerência à um conjunto de obra. São todos, citados ou não, personagens de elevada conduta moral que obedecem mecanismos particulares na relação com o macro social, e com o micro emocional. São sujeitos de postura decisiva em relação ao que pretendem, como um modelo prático a ser seguido; sob a luz de suas ações, se debruçam forças de poder prontas a agir com coerção diante dos enfrentamentos que esses tipos proferem. Se de um lado a igreja sombreia todos os diálogos propostos em seu longa mais premiado, aqui é um projeto conspiracional que parece antever os passos de seu protagonista. 

Bill tem um desenho muito facilmente atacável. É um militar orgulhoso de seus feitos em combate, de postura ufanista, é, enfim, a leitura mais tradicional do estadunidense médio votante convicto em Trump e portador de armas, conseguiram visualizar? O que de mais bonito o roteiro e a direção de Stillwater poderiam fazer por esse ser é torná-lo humano diante de tanta impossibilidade de salvação. Essa aproximação do espectador com sua zona de mutação não é acessada através do que de mais tradicional faria o cinema, fragilizando sua figura pétrea. O que o filme trata de derrubar é justamente seu pilar, o lugar da crença e da verticalidade de suas convicções; quando sente suas certezas ruírem, Bill se desmonta internamente para encontrar um novo lugar onde possa voltar a compreender e aceitar o que não é um espaço reconhecível por ele. 

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Esse escopo pessoal está inserido dentro de uma trama investigativa mais tradicional, ainda que desenvolvida com profundo interesse por seu autor. Inspirado em eventos reais, trata-se de uma clássica abordagem sobre o “homem errado” que inspira um caráter menos formalista, porque se embasa na relação de seu protagonista não com a narrativa, mas com o mundo à sua volta, seus coadjuvantes e a disposição cênica que estabelece nos espaços, transformando-os assim como a si. Não é o caso onde se diminua os artefatos mais caros ao roteiro no que consiste sua métrica, mas que se amplie seus eventos, por clichês que sejam, ao partir do sua curvatura básica para empenhar-se em ler um homem, sua psicologia diante de seu dever e do que nasce no cumprimento desse dever – a vida, rebelde à nossa compreensão, e se desenvolvendo em revelia aos que programamos. 

Para que esse perímetro seja estabelecido, Matt Damon entrega o que deve ser próximo ao que chamaríamos de “performance de uma vida”. Como já dito, Bill não é uma figura com o qual simpatizaríamos, exatamente. Não por ser alguém irascível ou com uma postura agressiva em relação ao próximo, pelo contrário, sua leitura é tão ordinária quanto o próprio o é. A natureza do que sua postura apregoa, os valores aproximados a uma direita conservadora, é que nos afastam de sua figura. E aí entra o trabalho de Damon, físico e psicológico, ao compreender aquela visão achatada e nos tornar possível compadecer de sua queda, até por nada ser radical – é um processo de redução de seus princípios mais arraigados, sem levá-lo para um novo lugar, mas deixando-o órfão das raízes de sua criação. A forma como o ator passeia por essa não desejada desconstrução, e largando-o seu objeto em profundo abandono, é nunca menos que louvável. 

Suas relações, tanto  com a filha presa vivida por Abigail Breslin, quanto com a mulher que irá ajudá-lo em sua caçada interpretada por Camille Cottin, são cruciais para montar o quebra-cabeça dramático desenvolvido em Stillwater, de construção até ágil para mostrar o que se esconde no interior dos indivíduos. À sombra de uma tal verdade que não foi servida a ele, Bill se empenha com a mesma entrega com que a guerra lhe forjou, para ter a surpresa de não estar preparado para o que a ação não-bélica lhe proporciona – o medo de um desconhecido, e de ter de lidar com o imprevisível. Isso é o que fica na superfície da produção e que acabam por valer a dedicação a ela. 

Um grande momento
Sentado com a filha, atônito com o estado das coisas

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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