Crítica | Streaming

Te quiero, imbécil

(Te quiero, imbécil!, ESP, 2020)
Comédia
Direção: Laura Mañá
Elenco: Quim Gutiérrez, Natalia Tena, Alfonso Bassave, Ernesto Alterio, Alba Ribas, Patricia Vico, Francesc Albiol, Núria Valls, David Lifschitz, Xavi Francés, José Pérez Ocaña, José García Ruiz, Laia Ferré, Vanessa Castro
Roteiro: Abraham Sastre, Iván Bouso
Duração: 114 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆
Onde ver: Netflix

Uma comédia romântica que chame a atenção do público-alvo… bom, pra começar, o que seria o público-alvo de uma comédia romântica? Mulheres e gays afim de diversão sem compromisso? Se a resposta for essa, Te quiero, imbécil! erra fragorosamente ao tentar acertar os contornos que uma narrativa do gênero precise alcançar hoje, quando certos comportamentos, discussões e absorção desse material não é mais a mesma que dos anos 1980 e 1990. Machismo, sexismo, alusão a homofobia, nada disso hoje tem lugar em um produto minimamente sadio, principalmente se a intenção é agradar o público que esse comportamento repele.

A diretora Laura Mañá se arrisca muito na mensagem que acaba por passar, tirando o olhar feminino do campo de apresentação do filme. Não é de se estranhar que o filme seja escrito por uma dupla masculina, justamente porque Te quiero, imbécil! parece tentar abrir um novo canal de comunicação com o público masculino através de um gênero que geralmente não lhe interessa. Há uma intenção de investigar as inúmeras possibilidades apresentadas para o tal “homem do século XXI” que o filme insiste em nomear. A julgar pela leitura do que seria esse homem, não passa ele de um arremedo do antigo com pequenas mudanças aqui e ali, sem no entanto perder sua essência negativa.

Te quiero, IMbécil! (2020)

Na prática, o filme propõe uma mudança superficial de atitude para com a vida, e ao fim a arrogância masculina definisse que esse caminho era vão e escolhesse seguir nos erros, sendo ainda premiado por tal atitude. A despeito dos personagens do filme serem superficiais e com desenho raso de comportamento, os homens são particularmente graves quando colocados em cheque, porque ao menos a dois deles há um foco maior e nenhum dos dois avança em discussão – pelo contrário, além de não se comprometerem com qualquer espécie de evolução, o filme ainda perdoa suas falhas como se dissesse “ah, eles são homens, não mudarão nunca…”; como vender esse produto para o público consumidor do gênero?

O erro cometido contra as duas protagonistas femininas vividas por Natalia Tena (a Tonks de Harry Potter) e Alba Ribas (100 Metros) é retirar delas qualquer subjetividade e dimensão; tratam-se, além de contar com a mesma superficialidade impressa nos homens, de duas mulheres sem voz, que mendigam relevância na produção. Duas personagens que giram em torno de Marcos sem qualquer nuance, apenas servindo de cabide para suas motivações. Todas as mulheres são mostradas como figuras sexualizadas em busca de uma válvula de escape puramente carnal. Não temos qualquer acesso a suas curvas dramáticas, apenas acessando o que as mulheres querem de Marcos, sempre com intenções muito explícitas.

Te quiero, imbécil (2020)

Colocando a narrativa nesses termos, a aproximação do público com a obra se prejudica, afinal como se envolver em conflitos tão clichês, mal desenhados, nada aprofundados, quase vazios de substância? Quando em determinado momento uma personagem chora, a indiferença é a saída. Com pouca diversão em cena e sobrando burocracia em cada nova divisão da trama, sobra em cena a beleza do homem como um todo, que provavelmente é um gancho de interesse ao público. Mas quem assiste um filme para conferir apenas o tórax de Quim Gutiérrez (Os Últimos Dias) sendo exibido com frequência, tendo que levar de brinde uma dramaturgia antiquada em forma e conteúdo?

A lamentar a presença do talentoso Ernesto Alterio (Infância Clandestina) em participação especial infame que só reforça estereótipos masculinos, em mais um dado que recalcula o machismo para os padrões de 2020. Mas como vivemos numa sociedade tradicionalmente machista, Te quiero, imbécil! pode vir a ter uma audiência acima da média e uma fatia do público ainda se identificar e divertir com um filme que, mal dos males, ainda comete a heresia de ser bem pouco divertido.

Um Grande Momento:
The Proclaimers na frente da loja.

Assistir na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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