Crítica | Streaming

That’s Amor

Brisa passageira

(That's Amor, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Romance
  • Direção: Shaun Paul Piccinino
  • Roteiro: Ali Afshar, John Ducey, Tiffany Dupont
  • Elenco: Riley Dandy, Isaac Gonzalez Rossi, Nancy Lenehan, Daniel Edward Mora, Bryan Craig, Kimberley Drummond, Arlene Tur, Rose Portillo, John Ducey, Tom Wright
  • Duração: 95 minutos

Muitas vezes a vida nos leva muito mais do que o contrário. Estamos sempre na direção do vento, à favor, e é a força das suas braçadas que avançamos na direção a seguir. Não que seja exatamente a coisa certa a ser feita, ou mesmo que o rumo esteja correto, apenas somos levados pelo calor dos acontecimentos. Quem nunca se viu incapaz de dar vazão à condução da própria vida? That’s Amor estreia hoje na Netflix trazendo essa reflexão, que nem é uma questão suave passando pela tela. Essa é a moral da história, literalmente, e o gancho de sustentação de uma produção que não tem muito a acrescentar, em qualquer outro aspecto, que não essa pincelada de sabedoria, ainda que de botequim. 

Dirigido por Shaun Paul Piccinino (que faz uma participação especial como ator), o filme nem tenta oferecer algo além da distração momentânea, perecível com o passar dos dias – ou horas. Já testado na Netflix com o sucesso de Um Brinde ao Natal, o rapaz entrega honestidade embrulhada para consumo rápido. Não existe qualquer elaboração mais formal para o que é visto; apenas hora e meia daqueles ‘filmes reconfortantes’, para que o público-alvo se sinta minimamente identificado pelo tempo da duração. Com os ingredientes certos, o filme mistura inúmeros prazeres táteis para identificar em quantos botões apertar para conseguir o resultado almejado, e na ânsia de fazer acontecer, nem o céu é o limite. 

Em cena, temos traição em namoro antigo, aulas de culinárias, parentes fofos e bondosos, um estrangeiro levemente sedutor, o reaparecimento de ex invasivo, paisagens agradáveis e aconchegantes – dificilmente daria errado. E, dependendo do olhar, não deu. Não vale a pena bancar o crítico duro com um filme tão simpático que simplesmente não tem nada de substancioso para oferecer, e apenas quer sua atenção e seu sorriso delicado ao fim da sessão. Qualquer acusação pesada seria desonesta com o que o filme propõe, que é um momento para desligar o cérebro e se deixar levar pelos aromas, texturas e ebulição dos novos encontros, e das novas oportunidades.

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Em cena, temos Sofia, que não se deu conta de que tudo na sua vida não foi decidido por ela, mas pela facilidade dos caminhos propostos. O que estava à sua mão, o namoro de adolescência estendido, a faculdade mais prática e próxima – ainda que esteja completando apenas 30 anos, está caindo a ficha de que falta impulso à moça. Quando perde tudo (mais uma vez, nada decidido por ela), ela para perceber que está empacada nas decisões alheias precisa ser alertada de tal. O filme poderia ser mais enfático nas observações sobre a necessidade do livre arbítrio, um elemento tão necessário da vida, mas que precisa ser utilizado, e não ser deixado jogado num canto da casa. 

Uma produção sem contra indicações, a não ser pelo fato de não oferecer qualquer desafio imagético ou narrativo, That’s Amor começa e se encerra como se nada tivesse acontecido. É o principal problema da produção, propor um empuxo decisório na vida do espectador que não tem ousadia para tentar em si. Mas essa talvez seja também a caraterística de algumas pessoas, se deixar levar pelo destino já traçado sem questionar. Isso é exigido da protagonista, que tem coragem de fazer muito mais do que Piccinino; sem cobranças, muitas vezes é preciso força até para levantar da cama. Sejamos impulsionados pelas mudanças de Sofia então, muito mais valente do que o filme, uma brisa suave e passageira, tenta ser. 

Um grande momento

Olivia acorda Sofia

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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