Crítica | Cinema

Não! Não Olhe!

(Nope, EUA, JAP, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Jordan Peele
  • Roteiro: Jordan Peele
  • Elenco: Não! Não Olhe! não se afasta da dubiedade. Transita entre passado e presente em cenas específicas e no todo do fazer cinematográfico
  • Duração: 130 minutos

Falar de um filme do Jordan Peele é sempre falar sobre muitas coisas. Em suas alegorias, o diretor de Corra! e Nós vai sempre além daquilo que está na superfície e em Não! Não Olhe!, quando assume mais frontalmente o cinema fantástico em sua forma e fala justamente dele, do cinema, mas não apenas o de gênero, mergulha num universo de constituição, formação, significados e significantes, linguagem e fruição. Em tela estão a história, o mercado, a manipulação e o magnetismo.

E ele começa do começo, quando cria uma narrativa em cima da primeira imagem em movimento, aquela em que um jóquei negro é visto cavalgando um cavalo e que alguns chamam de Cavalo em Movimento e outros de Sallie Gardner a galope (o nome é o do cavalo). O jóquei seria o ancestral dos irmãos protagonistas OJ e Em, que trabalham como adestradores de animais para produções cinematográficas e acabaram de herdar o haras do pai, Otis Haywood. Um emaranhado de apagamento e exploração que constitui a origem do cinema e do audiovisual e que se revela numa simbólica presença em um set com tela verde e pouca escuta, onde também se expõe a falta de espaço num mercado dominado por homens brancos durante todo o sempre.

Não! Não Olhe!
Universal Pictures

Não! Não Olhe! não se afasta da dubiedade. Transita entre passado e presente em cenas específicas como essa e no todo do fazer cinematográfico. Não é só a manutenção que interessa a Peele, mas também a transformação, um certo esvaziamento e condicionamento que vem de lugares outros que não da arte. Para além do que mostra, está a própria feitura, que joga com elementos muito específicos do cinema que abarca e não abandona, com símbolos marcados clássicos de gênero que ele nem sempre fez questão de usar. É um cinema que se estabelece e fala do passado, mas tem consciência de que também não está mais lá. 

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O horror do longa transita por espaços variados da memória do realizador e do público, buscando a relação com outros sentidos e aproximações audiovisuais. Há um aproveitamento muito consciente das sensações e de como elas vão se transformando em algo material. Seja um prenunciado ataque de fúria não explícito de um símio em programa de televisão ou uma tradicional e impressionante chuva de sangue, da crueza não exibida à metáfora confessa, o que está por trás de tudo é o mesmo, captando, capturando, por vezes destruindo e por vezes devolvendo o que não quer, o que atrapalha. Mais, rejeitando aqueles que o evitam. Seria específico então, mas como definir esse limite? Peele, resiste em expor sua aparência e a sua determinação, porque ela sempre vai ser incerta. Ele brinca com a tecnologia, traz personagens que avançam e voltam no tempo, dá tempo para que seu monstro seja explorado.

Não! Não Olhe!
Universal Pictures

Até que ele se revela grandioso e, cada vez mais maravilhoso, devora o público que o olha extasiado, assim como estão aqueles que observam tudo do outro lado da tela e que há tanto tempo são enfeitiçados por ele. Em uma instância específica de Não! Não Olhe!, o limite entre obra e espectador resta também borrado, como o do realizador, e o som dos devorados representa todos. O ser lovecraftiano ali ressignificado, tão poderoso, mas carregado de crueldade, delírio e também encanto, é soberano e esplêndido, pelo menos até ser destruído pelo boneco de plástico genérico, símbolo mercadológico de um parque qualquer.

Não há primeiras imagens, não há mais a necessidade do natural, não há mais aquele que foi lá para ver o que não se movia com seus rolos e rolos. Mas também não há mais o diafragma que se abre infinitamente na sua captura e consumo infinito de corpos extasiados. Não há mais nada depois do boneco. E tudo faz sentido quando se olha para esse lado, mas há muitas outras instâncias e sentidos, há outros caminhos a serem percorridos na vida daqueles que seguem, como o do pequeno monstro de Peele que não vemos, nunca aparece, mas enfoca OJ em contraluz emoldurado pela entrada do parque trazendo a memória do passado de volta só que a diferença está posta. É outro, mas ainda é um monstro com os mesmo selos e marcas, agora em outro lugar. Onde vai chegar?

Um grande momento
Ele se mostra

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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2 Comentários
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Leonel Laterza
Leonel Laterza
28/09/2022 15:02

Achei legal, no texto da Cecília, um destaque que ela faz sobre o monstro do outro planeta que devora tudo e “cospe” ou devolve os restos, jogando tudo de volta. Dá pra fazer uma analogia interessante com a nossa realidade. Uma mensagem metafórica interessantíssima. Recomendo demais.

Leonel Laterza
Leonel Laterza
28/09/2022 14:51

Amei a crítica sobre o Não! Não olhe! Cecília escreve muuuuito bem! Adoro.

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