(Get Out, EUA, 2017)

Terror
Direção: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root, LilRel Howery
Roteiro: Jordan Peele
Duração: 104 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Depois de anos atuando em programas de televisão, o comediante Jordan Peele resolveu dirigir o seu primeiro filme, e com um propósito bem delimitado. Corra! mistura terror psicológico e suspense para falar do racismo de uma forma contundente e perturbadora. Com o limite da tensão quase sempre direcionado para um humor irônico e sarcástico, o longa expõe as feridas de uma sociedade doente.

Como uma versão moderna de Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967), no filme, Chris é um jovem negro que viaja para a casa da namorada para conhecer os pais dela, brancos. Chegando lá, encontra exatamente o que sabia que iria encontrar, mas não estava nem um pouco preparado para algumas presenças, visitas e comentários.

Para contar sua história, Peele, que também assina o roteiro, cria uma motivação irreal e não se furta de utilizar elementos fantásticos, mas com uma história permeada de realidades, verdades incômodas e assuntos não resolvidos. Nessa mistura de fantasia e realidade, em sua formulação metafórica, o filme não só se aproxima da questão do preconceito racial no mundo, como extrapola para que se reflita sobre aquilo que é mantido velado, algo que fora discretamente cultivado, dentro de cada um.

Ali está todo um jogo entre ficção e realidade, entre o que é externado e o que está cravado dentro do homem, perpetuado por gerações. Como se a dicotomia do filme – fantasia/realidade – pudesse se traduzir fora da tela como a tentativa de esconder por trás de um falso orgulho do não-racismo ou de uma falsa idolatria por personalidades (da arte, do esporte, da política), um desprezo que sequer pode ver o outro como um ser vivo.

A tensão das situações que se veem na tela, sempre flertando com um humor ácido e nervoso, consegue atingir exatamente como deveria. Muito pelo teor inaceitável do que se vê/ouve, mas também pelo incômodo interior ao repetir discursos racistas que há muito pouco tempo eram repetidos com frequência em nossa sociedade e, mesmo sem procurar muito, ainda ecoam por aí.

Ainda que de certo modo previsível em seu desenvolvimento, Corra! consegue resguardar algumas surpresas. Porém, é em sua mensagem que encontra sua maior força. A perturbação necessária que ele causa é muito maior e mais marcante do que qualquer excesso no final ou do que qualquer falha de desenvolvimento de personagens.

Um excelente filme que, divertindo e angustiando, envolve o espectador e com ele permanece, provocando conscientização e debate.

Um Grande Momento:

“Como é ser um afro-americano nos dias de hoje?”

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