(Wonder Woman, EUA/CHN/HKG, 2017)
Ação
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Elena Anaya
Roteiro: William Moulton Marston (quadrinhos), Allan Heinberg, Zack Snyder, Jason Fuchs
Duração: 141 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Antes de qualquer análise, é preciso falar de como é incrível que Mulher Maravilha tenha ultrapassado os US$ 200 milhões nas bilheterias do mundo em seu final de semana de abertura. De como mulheres podem sim dirigir longas-metragens de super-heróis que tenham um retorno financeiro expressivo, e de como personagens femininos podem ter a mesma visibilidade e o mesmo sucesso, embora por décadas tenha se tentado fazer crer que não.

Dito isso, parte-se à análise do filme enquanto obra cinematográfica e, embora o resultado deixe a desejar em muitos aspectos, vê-se em Mulher Maravilha um produto eficiente, divertido e, comparativamente, muito melhor do que os últimos exemplares de produções da DC Comics.

A história que se conta é a da super-heroína Diana. Amazona criada como a melhor guerreira da escondida Ilha Paraíso, ou Themyscira, ela tem contato com o mundo exterior após resgatar Steve Trevor em um acidente de avião. Esse encontro, e o que ele ocasiona depois, faz com que ela decida salvar a raça humana, extinguindo a guerra.

Embora a ingenuidade da personagem, assim como a ausência de conflitos internos comuns aos heróis do gênero, sejam pontos positivos, é difícil não se incomodar com os muitos problemas do longa. O primeiro talvez seja a duração excessiva, ainda aumentada por uma má distribuição da ação e problemas pontuais na determinação e manutenção da tensão.

Outra coisa, ainda no sentido mais macro, está na própria concepção dos personagens. É interessante ver que não há preocupação no desenvolvimento dos personagens masculinos do filme. É como se nessa inversão, décadas de um cinema que privilegia o desenvolvimento desses personagens – ignorando por muitas vezes a mulher na tela – fossem vingadas. Porém, como resultado, considerando-se o principal vilão inclusive, há um nítido enfraquecimento da história contada.

Indo além, há toda uma concepção de visual brega e exagerada, que faz parte da estética equivocada utilizada pela DC ultimamente, e que se perde em um CGI (imagem criada por computação gráfica) agressivo. O gráfico, por exemplo, chama mais atenção do que qualquer recriação de ambiente ou coreografia de luta que se queira mostrar.

Brega também é a mania de Patty Jenkins em realçar a beleza da atriz Gal Gadot em qualquer cena, seja ela de luta ou não. Indo além de toda uma discussão sobre o figurino da personagem, algo que vai além do universo cinematográfico e existe independentemente nos quadrinhos, não há justificativa para os repetidos closes em feições sensuais da atriz nos momentos mais estranhos. Embora Diana tenha a beleza e sedução sempre consigo, presentes da deusa Afrodite, o cenho franzido e a boca frouxa simplesmente não cabem em cenas de luta e despertam uma sensualidade que contraria os objetivos do filme e da própria protagonista.

Outro incômodo vem do roteiro, este escrito por quatro homens, e que volta para o que tem enterrado as outras adaptações da mesma editora de quadrinhos. Mais do que enfatizar a batalha do bem contra o mal, há uma tentativa de explorar o amor – em sua concepção mais rasa – como algo que caiba em qualquer história e resolva qualquer problema. Se você tem uma heroína como a poderosa Mulher Maravilha e a coloca para ter a mais importante de suas batalhas, não é deste modo que isso que deve servir de motivação. Condicionar, por pura inabilidade na escrita, ressalte-se, as ações de uma personagem como essa a uma declaração amorosa – com um flashback que chega menos de cinco minutos depois da cena ter acontecido – é, no mínimo, frustrante.

Mas, mesmo com tantos e graves problemas, há boas cenas de luta e o carisma da personagem que pode ser percebido extra tela. Há ainda um bom começo, com a história de Themyscira e suas amazonas, e alguns bons lampejos de questionamento social e filosófico, principalmente quando se questiona questões religiosas ou quando se fala da representatividade da mulher e da dificuldade de aceitação pelo universo pré-estabelecido e dominado pelos homens.

Entre os pontos positivos está a fidelidade com que a super-heroína, em toda a sua complexa composição mitológico-representativa, foi tratada. É fácil se interessar por sua história e torcer para que a realização de seu ideal de amazona se concretize, além de ser muito bom ver a mulher guerreira representada na tela e possibilitar que meninas de diversas idades encontrem figuras de identificação e reconhecimento que, como ela, contrariem o estigma preconceituoso e excludente de outrora.

O longa e todo o seu sucesso são uma bela realização do que motivou a criação de Diana lá nos idos de 1941 pelo Dr. William Marston. Com sua bondade, força, liberdade, determinação e justiça, a Mulher Maravilha não deixa de ser um modelo para um mundo mais justo e equilibrado.

Mulher Maravilha é, sem dúvida, o primeiro passo para um novo cinema de ação, mais especificamente para adaptações de quadrinhos, que têm ainda muito material a ser trabalhado. Como todo primeiro passo, ainda é vacilante e está contaminado por questões que extrapolam as intenções, mas merece reconhecimento pelo simples fato de ter acontecido e estar levando as pessoas (muitas) aos cinemas.

Quanto à eterna briga DC x Marvel, esta ainda está bem à frente daquela. Que, com o chamado de Diana, venham Carol Danvers, Jean Grey, Wanda Maximoff, Anna Marie e Ororo Munroe, e que elas provoquem Ravena, Estelar, Mera e Barbara Gordon para completar a disputa.

Um Grande Momento:
Para que servem os homens.

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