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Tô Ryca

(Tô Ryca!, BRA, 2016)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Pedro Antônio Paes
  • Roteiro: Vitor Brandt, Fil Braz
  • Elenco: Samantha Schmütz, Katiuscia Canoro, Fabiana Karla, Marcus Majella, Marcelo Adnet, Anderson Di Rizzi, Sílvio Matos, Mauro Mendonça, Marília Pêra, Fiorella Mattheis
  • Duração: 107 minutos
  • Nota:

Tô Ryca é aquele tipo de filme despretensioso, onde quem o faz está se divertindo e quem assiste a ele também. Entregue ao timing e humor sempre afiado de Samantha Schmütz, o longa segue sua narrativa alternando entre boas e má ideias, más e boas execuções. Ainda que não tenha sido um fracasso de bilheteria, o retorno nas salas não foi tão grande quanto o da franquia Minha Mãe É uma Peça. Por parte da crítica, como sempre, foi desprezado, tratado como algo irrelevante. Indo um pouco além do filme, é curioso pensar em porque isso acontece.

Há muito preconceito com a comédia no Brasil por parte da elite. Muito! Os filmes de comédia, principalmente os assumidamente de besteirol, costumam ser rechaçados e tratados como obras menores desde sempre no nosso cinema. Podemos voltar à chanchada, passar pela pornochanchada e chegar ao estouro de público das atuais comédias a la Globo Filmes, para constatar o fato. Para a crítica e o público cinéfilo ou intelectual, é como se a comédia precisasse ser sempre elaborada para ter o seu valor. Isso não diminui apenas a obra, mas especialmente quem a consome e com ela se deleita.

Samantha Schmütz em Tô Ryca (2016)

Não que seja fácil para quem está acostumado a um tipo de cinema se encontrar no outro, mas é preciso parar de desmerecer o produto nacional popular, e isso vale para o cinema, música, dança ou qualquer outro tipo de arte. Pode ser que sigam receitas de bolo, sejam comerciais, pasteurizadas, copiadas, ou qualquer coisa que o valha, mas afirmar que produções do tipo são completamente desprovidas de valor, assim como dizem, ou melhor, dizemos, é arrogante e decorrente de certezas que vêm do próprio preconceito.

Esse tipo de classificação que fazemos do público-alvo, como desprovido de critério e parte de uma massa, não é só equivocado como excludente. Como disse Richard Shusterman ao confrontar esse tipo de pensamento de elite, e aí se incluem os críticos e cinéfilos, “Eles se recusam a reconhecer o quanto esse público [popular] é estruturado por grupos de gostos diferentes, refletindo ideologias variadas, meios socioculturais diversos e empregando múltiplas estratégias interpretativas para ler as obras de arte popular de maneira a torná-las mais agradáveis e relevantes em relação à sua experiência social particular”. Fica aí a reflexão

Samantha Schmütz em Tô Ryca (2016)

Voltando a Tô Ryca, o longa parte de um lugar muito comum: a vontade de ter dinheiro para fazer tudo o que se quer. A solução mais prática também está no longa: a loteria, aquela que nunca sai. Selminha, a personagem de Schmütz, tenta, tenta, mas acaba encontrando o que queria de outra maneira. O filme passeia por estereótipos variados de classe e gênero e tem algumas tomadas de mau gosto, mas funciona no caminho que decide trilhar de desafio e redenção.

Além da atuação precisa da atriz, o roteiro de Vitor Brandt e Fil Braz tenta ir além da amarração de esquetes comum ao gênero, principalmente quando seu elenco é oriundo de programas televisivos de humor. A tentativa de firmeza no texto, porém, não está presente na direção de Pedro Antônio Paes (Altas Expectativas) que, por vezes, parece tímido diante da possibilidade de expansão de seus atores, algo que se percebe em outros títulos dirigidos por ele.

Samantha Schmütz em Tô Ryca (2016)

Com participações de grandes nomes da comédia atual, como Marcelo Adnet, Katiuscia Canoro, Marcus Majella e Fabiana Karla, além de pontas preciosas de Marília Pêra e Mauro Mendonça, Tô Ryca! é um entretenimento que se sustenta e consegue gerar divertidas risadas, sem deixar de criticar a política, a corrupção e o deslumbramento. Mesmo que não seja inesquecível, cumpre o seu papel.

Para fechar, volto à Shusterman: “Mesmo que reconheçamos que as obras de arte popular sejam transitórias e que seu poder de agradar seja relativamente breve, isso não significa que não tenham valor nem que seus prazeres sejam irreais. Supor isso seria confundir prazer ou valor com permanência. Mas existe valor em coisas efêmeras e, na verdade, na própria efemeridade”.

Um Grande Momento:
O debate.

Pôster de Tô Ryca! (2016)

Telecine

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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