Crítica | Streaming

Tudo por Jojo

Falta de propósito - na vida

(Für Jojo, ALE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Barbara Ott
  • Roteiro: Stefanie Ren
  • Elenco: Caro Cult, Nina Gummich, Steven Soah, Louis Nitche, Anne Zander
  • Duração: 90 minutos

Antes de mais nada, Paula é insuportável. Protagonista de Tudo por Jojo, estreia alemã de hoje da Netflix, a personagem é um poço de muitas coisas ruins. É mimada, egoísta, encostada, superficial, arrogante, cínica, mal educada, e eu poderia continuar aqui descrevendo essa criatura, que termina o filme sem qualquer evolução, ok? Isso definitivamente não é um problema maior para o filme, mas talvez sim para ela mesma, o dia em que talvez perceba como sua vida é vazia e desinteressante, ao contrário do que ela mesmo acha. A coitada da Jojo, sua melhor amiga, que pague por arrastar pela vida afora figura tão parasitária, que não pensa duas vezes em estragar a vida da única pessoa que a suporta.

Parece combinado, mas essa semana uma outra produção alemã de protagonista sem qualquer traço de empatia estreia também, mas no cinema. As semelhanças entre o filme dirigido por Barbara Ott e Garota Inflamável são inúmeras, o que me pega pensando se protagonistas alemães são sempre desagradáveis e eu nunca tinha notado isso. Ambas comédias agridoces centradas em pessoas irresponsáveis emocionais e absolutamente irritantes, não sei dizer qual dos dois títulos provoca mais gatilhos em pessoas minimamente equilibradas. Aqui, temos de positivo o fato de que sua co-protagonista quer se livrar desse abismo de problemas, que só a constrange e vive de maneira muito pouco saudável a vida dos outros – ou só da própria Jojo, vivida por Caro Cult, que preciso dizer, é perfeita em tudo que se propõe.

Tudo por Jojo
Stephan Rabold

Essa, por sua vez, é uma personagem-título adorável. Em tese, teriam ambas tudo para serem iguais. Nasceram na mesma ilha que detestam, fugiram juntas para Berlim e se alimentam dessa amizade que começou na infância, porém Jojo têm uma vida de verdade. De adulto. Paula não; não conseguiu passar no exame da ordem dos advogados, o que parece ter sido sua última paixão. Desde então, parece disposta a mostrar a amiga que o fracasso de uma precisa ser obrigatoriamente o de ambas. Quando Jojo se apaixona, Paula se desespera com a possibilidade de ser obrigada a enfrentar a vida real. O que incomoda na situação como um todo é que não há qualquer preocupação da protagonista em mudar; ela quer seguir autodestrutiva. Mas até aí tudo bem, cada um tem o direito de ferrar a própria vida. Poderia apenas não tentar destruir também a alheia, né?

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Aos poucos, percebemos que Tudo por Jojo é um filme repleto de cabides emocionais profissionais. Pessoas que não conseguem dar um passo adiante sem deixar estragos para trás, sem resolver os proṕrios problemas e sempre causando novos, com isso vivendo às custas da dor alheia. Uns percebem esse traço em si, e muitos seguem como Paula, destruindo como um trator quem diz amar. Seguir tentando evoluir, observando os próprios erros e ao menos tentar cometer uns diferentes, é um passo importante para a construção de pessoas que ao menos tentem ser menos infelizes. Ok, a ilha de onde fugiram as protagonistas de fato é muito ruim, sem graça, sem qualquer atrativo, nisso Paula tem razão. Mas porque não construir um lugar melhor longe dali, e ao invés disso manter a energia pesada de lugar tão sem perspectivas?

Tudo por Jojo
Stephan Rabold

Apesar dos pesares, de sentir vontade de xingar o tempo todo, talvez Tudo por Jojo sirva na seguinte chave: não seja essa pessoa. Ou nenhuma delas. Mas Paula, essa em especial, tente diariamente ser o oposto dessa criatura. O trabalho da roteirista Stefanie Ren é muito direto em como dissecar essas questões e tentar criar personagens absolutamente críveis em seus mundos muito particulares; são tipos que, apesar de serem originários do mesmo espaço, têm construções de personalidade bem distintas. Em parceria com o trabalho de Ott, ambas tentam reafirmar uma o trabalho da outra, sem desperdiçar os elementos cênicos muito ricos à sua disposição, que criam no espectador os sentimentos ideais para o desenvolvimento de cada um ali.

O que graficamente é feito por sua diretora em Tudo por Jojo é criar um ambiente perfeito para que os defeitos de sua protagonista sejam injustificados, porém compreendidos, de alguma forma. Não é apresentada uma causa que seja verbalizada para que Paula se comporte da maneira que se apresenta, e o espectador segue então tentando observar no seu entorno, nas tintas que Ott emprega, um lapso de motivação. Tudo é muito mais procurado em suas imagens, e em suas sensações, quase sempre gerando desconforto. A autodestruição é um processo que inclui, de modo sistemático, a eliminação de qualquer fator que minimize a ideia de redenção. O que o filme mostra, até com uma dose de coragem, é que algumas pessoas, inclusive as que recebem carinho proporcionalmente desmedido ao que dão, não tem outra saída a não ser queimar lentamente. Essas chamas muitas vezes são belíssimas, mas o que deixam pra trás, inadvertidamente, são as mesmas cinzas de sempre.

Um grande momento
Paula e a fogueira

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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