O primeiro impacto de Vento Norte é estético. Há planos ali que parecem emprestados de um filme do futuro, como se Salomão Scliar estivesse enxergando possibilidades que ainda demorariam anos para se tornar frequentes. Apresentada pela primeira vez no 15º Olhar de Cinema, a nova cópia restaurada pela Cinemateca Capitólio possibilita ao público conhecer ou reconhecer esse caráter visionário e inovador do longa de 1951, percebendo agora toda a vitalidade dos registros, do mar, da areia, dos barcos e dos rostos e corpos marcados pelo cansaço.
A trama do filme acompanha a chegada de um forasteiro a uma comunidade de pescadores do litoral gaúcho. Sua presença desencadeia desejos, rivalidades e violências. O enredo tem potencial, mas Scliar parece fascinado por outra coisa: a relaçao entre as personagens daquele lugar e a paisagem que habitam; pelas permanências e as transietoriedades que se equiparam à natureza do local. Como o vento do título que, mais do que um elemento atmosférico, molda os corpos, interfere nos deslocamentos e influencia as tensões que atravessam a narrativa.
Scliar era fotógrafo antes de ser cineasta, um grande fotógrafo, e talvez isso se explique pelo próprio filme. Cada enquadramento revela uma atenção incomum à composição visual. As redes de pesca estendidas na areia, os barcos recortados contra o horizonte e os grupos de pescadores ocupando o quadro como esculturas comprovam uma busca constante por formas, volumes e texturas.
O filme tem uma condução dramática que nem sempre acompanha a força das imagens. Os conflitos amorosos e as relações na comunidade de pescadores carregam certa rigidez melodramática, parecendo, por vezes, menos vivos do que a própria paisagem que os cerca. O talento de Scliar como fotógrafo supera seu trabalho como diretor de atores, produzindo sequências cuja potência visual permanece muito tempo depois de os acontecimentos específicos da trama terem se dissipado. Ou seja, mesmo que o desequilíbrio esteja ali, a dimensão visual faz com que o filme continue fascinante.
Frequentemente, quando se fala de Vento Norte, destaca-se o seu valor histórico como primeiro longa sonoro de ficção realizado no Rio Grande do Sul. A importância existe e é inegável, mas a restauração deixa evidente algo igualmente relevante: a qualidade cinematográfica da obra. Mais do que um documento de época recuperado para fins de preservação, trata-se do resgate de imagens poderosas que têm o poder de reverberar ainda nos dias de hoje.
E da percepção de influência, pois outra coisa que chama a atenção em Vento Norte é a presença dos pescadores da própria região diante das câmeras. Seus rostos carregam uma verdade difícil de reproduzir artificialmente, isso décadas antes de o Cinema Novo transformar locações naturais e personagens populares em parte fundamental de sua linguagem. Scliar já percebia a força dramática desse encontro entre cinema e realidade. Não por acaso, há quem veja o filme como uma espécie de ponte entre o neorrealismo italiano e o Cinema Novo brasileiro.
Assistir a Vento Norte no cinema hoje comprova a importância de resgatar, recuperar e preservar nossas histórias gravadas em película. Setenta anos depois, a restauração faz novas gerações descobrirem um cineasta de olhar singular, que compreendia o poder expressivo da paisagem e transformou o litoral de Torres em um espaço ao mesmo tempo concreto e mítico. Ali, a areia, o vento, o mar e os desejos humanos fazem parte da mesma matéria e marcam quem acompanha essa consubstancialidade.
Um grande momento
O vento e a areia dançam
[15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]