Crítica | Streaming

365 Dias: Hoje

Sacanagem romântico-musical

(365 dni. Ten dzień, POL, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Barbara Bialowas, Tomasz Mandes
  • Roteiro: Blanka Lipinska, Tomasz Mandes, Mojca Tirs
  • Elenco: Anna Maria Sieklucka, Michele Morrone, Magdalena Lamparska, Otar Saralidze, Simone Susinna, Kamil Lemieszewski
  • Duração: 106 minutos

Pouca coisa mudou nos últimos dois anos que separaram 365 Dias dessa sua continuação que estreia hoje na mesma Netflix disposta a voltar a fazer os mesmos índices de audiência. Vejamos… bem, Laura e Massimo casaram. Por conta disso, fazem bem menos sexo do que no longa anterior, o que agradaria os pudicos de plantão. Também por conta do casamento, Massimo trabalha menos, ou seja, é menos bandido. Tirando essas pitadas de escárnio, tudo continua como antes nesse 365 Dias: Hoje, e isso significa que continua faltando qualidade no projeto, que arrisco dizer ser ainda pior que o anterior, principalmente por ser um projeto domado.

Se na lógica interna pouco mudou, na externa, desde meu último texto envolvendo uma obra de Blanka Linpińska, bastante coisa foi alterada. O primeiro filme se tornou um fenômeno de público, uma destruição crítica, foi indicado para inúmeros Framboesas de Ouro (mas só venceu em pior roteiro), não podemos negar que acabou por se tornar um acontecimento cultural, ainda que dotado de muita chacota. O filme fez a fama dos diretores, Barbara Bialowas e Tomasz Mandes, que se transformaram em piadas com a absoluta falta de talento apresentada anteriormente. Hoje, o mundo está preparado e ansioso para um novo produto da série.

365 Dias: Hoje
Netflix/Karolina Grabowska

De 2020 para cá, 365 Dias inflou em matéria de trilha sonora. Literalmente a cada 5 minutos, uma nova canção invade a cena, tocando sempre quase inteira. Não satisfeitos de agredirem os olhos e o cérebro, seus produtores resolveram também atacar os ouvidos, com uma seleção das canções mais bregas e despropositadas da temporada. Uma cena erótico-natalina (sim!) é coroada com uma inexplicável melodia que congrega uma história de amor e a chegada do Papai Noel, isso em meio às tradicionais trocas de presentes e mordidas em rabanadas. É um fato que foi gasta uma grana de direitos autorais, sendo que não conseguimos entender mais esse desvario da cinessérie.

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Pra quem não conferiu o primeiro e vai aproveitar pra fazer uma mini maratona, boa sorte com a exposição a quantidade de radioatividade elevada. Se trata mais uma vez de um pretensioso drama-romântico-erótico que se imagina produzindo requintados encontros e abalando as estruturas do público médio. Independente do alcance, o filme não deixa de horrorizar com a absoluta falta de talento coletiva. Da fotografia explorando a maior quantidade de lens flares possível em camêra ininterrupta em sua empolgação estética, passando pela trilha sonora composta pelos próprios diretores cuja vergonha alheia é garantida, 365 Dias: Hoje extrapola onde o original já era inacreditável.

365 Dias: Hoje
Netflix/Karolina Grabowska

Talvez o fato da narrativa não ter qualquer novidade dessa vez, sendo obrigado a recorrer a um estratagema tão ordinário e teledramatúrgico para fazer uma graça, deixe o filme ainda mais aborrecido e dispensável. Como em outras nulidades, a “trama” se emperra após o tal casamento, exatamente como acontece com Cinquenta Tons de Cinza, e o filme passa a acompanhar esse mesmo vazio sem qualquer interesse e sem tentar motivar sua pasmaceira particular. A chegada de um novo casal transante e de um pretenso candidato a amante para Laura só deixa o todo com a certeza de um desespero por substância, mesmo as ruins. Na reta final, a porção mafiosa do filme é finalmente acessada, mas é tarde para… peraí, nada melhoraria esse manancial de ruindade.

Qual a graça então de mais uma vez encarar um festival de misoginia, machismo, e o acúmulo de possibilidades narrativas estapafúrdias? Bom… já reconhecemos hoje esse universo e sua propalada mediocridade. 365 Dias: Hoje passa a apostar na comédia (será involuntária, mesmo com uma cena dantesca como a do campo de golfe?), e em diversos momentos nos pegamos gargalhando com a infinita cara de pau de todos no projeto. Desde o horror de todos no elenco (com a exceção da bunda de Michele Morrone, que continua linda) até a trama paralela dos amigos dos protagonistas, tudo é uma imensa colcha de retalhos puídos prestes a se desfazer com tamanha ruindade. O jeito é aproveitar enquanto é tempo e chafurdar na mais constante prova do horror cinematográfico em sua essência.

Um grande momento
O jogo de golfe

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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