Crítica | Catálogo

Como Matar a Besta

Monstros conhecidos

(Matar a la bestia, ARG, BRA, CHL, 202)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Agustina San Martín
  • Roteiro: Agustina San Martín
  • Elenco: Tamara Rocca, Ana Brun, Sabrina Grinschpun, Julieth Micolta, João Miguel
  • Duração: 81 minutos

O horror é terra fértil para alegorias. Potente em sua capacidade de criar mundos refletindo realidades, fala de coisas humanas e cotidianas, como deixar a infância e tornar-se adulto em um mundo cheio de ausências, preconceitos e contradições. Sobre essa fronteira, Como Matar a Besta parte de uma busca por um irmão desaparecido para contar a história de Emilia. Envoltos pelas névoas da fotografia de Constanza Sandoval, os limites estão representados também geograficamente, na fronteira entre Brasil e Argentina, na cidade onde tenta descobrir algo; nas diferenças de uma sociedade que está dividida entre o progresso progresso e o retrocesso.

Com direção de Agustina San Martin, o longa, uma coprodução da Argentina, Brasil e Chile, tateia no desconhecido, sem dar muitas explicações para aquilo que apresenta. O tempo que se dilata segue as descobertas da protagonista do novo espaço e de si mesma e permite o observar da natureza e daquele universo contraditório habitado pela tal fera do título. Solene e cercada de mitos ancestrais, descrito em tantas culturas sul-americanas — o homem que se transforma em diversos animais para devorar mulheres nas matas –, ele surge, se vai e deixa em seu rastro aqueles que o perseguem, num misto de fanatismo religioso e cruzada anarquista. 

Como Matar a Besta
Divulgação

A trama vai se estabelecendo com a busca e o vaguear pela cidade e pela vegetação que a circunda, ladeada pelas relações estabelecidas. São mulheres fortes que definem seu destino e homens que não estão quase nunca em cena, a menos que seja em suas caçadas ou momentos de lazer.

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Há interesse na dubiedade de Como Matar a Besta, quando o roteiro também assinado por San Martin insinua que o ente pode ser o passado buscado e o futuro enfrentado, aquele que desapareceu e o desconhecido que precisa ser enfrentado. Na história de amadurecimento e descoberta, tudo aquilo que circunda Emília e a impressiona ou pressiona de alguma maneira vai conduzindo-a ao encontro com aquela criatura, seja a seca relação com a tia, a comum ruptura com a mãe, a descoberta dos desejos ou a vivência em uma sociedade parada no tempo.

Há suspense e medo nesse caminhar rumo ao desconhecido e o filme deixa isso bem claro nas escolhas da diretora, que faz um jogo interessante com o silêncio, aliás todo o trabalho de som de Como Matar a Besta é muito importante para a criação dessa atmosfera ansiosa e fantástica que transmuta a realidade, o enfrentar o fim de uma fase da vida. Embora existam alguns exageros, e o apego a determinações do gênero cinematográfico, a aposta na liberdade de interpretações faz com que a jornada de Emília desperte a curiosidade e prenda a atenção do começo ao fim. A besta, afinal, já apareceu para todos nós.

Um grande momento
Eu não tenho medo

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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