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Klondike – A Guerra na Ucrânia

Situação imediata

(Klondike, UKR, TUR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Guerra
  • Direção: Maryna Er Gorbach
  • Roteiro: Maryna Er Gorbach
  • Elenco: Oksana Cherkashyna, Sergey Shadrin, Oleg Shcherbina, Oleg Shevchuk, Artur Aramyan, Evgeniy Efremov
  • Duração: 100 minutos

Não há dúvidas de que Klondike – A Guerra na Ucrânia é um filme urgente, e nem se coloca em cheque aqui (ainda) suas qualidades cinematográficas. Lançamento dos cinemas essa semana, a Pandora Filmes adquiriu os direitos da produção que acabou de ganhar prêmios nos festivais de Sundance e Berlim desse ano, e já está lançando; isso não é obra do acaso. Com os conflitos deflagrados entre o país e a Rússia, o filme se tornou uma espécie de porta-voz da base dessas questões, o que o transforma em importante documento sobre o hoje. Ao contrário de outros exemplares de cinema político, existem poucas chances do filme envelhecer, tendo em vista a historicidade de seu caráter.

A jovem cineasta Maryna Er Gorbach tem profunda compreensão do espaço físico em que está inserida, e do espaço cinematográfico que procura ler. Sua visão em 180o dos ambientes que filma dão ao seu projeto uma ideia de unidade, unindo seres e ambientes, transformando-os em reverberação uns dos outros. É como se uma coisa não pudesse ser comunicada sem a outra, ou as suas entranhas estivessem tão conectadas que tanto o que é vivo quanto o que é matéria inorgânica fossem reféns de um mesmo regime de eventos. Seu constante movimento de perpetuação de planos coloca em perspectiva tudo ao seu redor de maneira fluida, sem apartar esses elementos.

Klondike - A Guerra na Ucrânia
Divulgação

Também a essa circularidade podemos atribuir uma ideia de eterna continuidade em relação aos ciclos de guerra, assim como aos conflitos humanos. É um movimento que se entende de maneira sempre muito integrada ao conceito do projeto, que caminha com frequência na direção de uma repetição de costura estética. Ao contrário do que se possa pensar, essa reiteração não diminui a intencionalidade, e sim recupera em sua colocação esse aspecto contínuo do que representam as batalhas infindáveis, sejam elas internas ou externas. Além de conectar o que é cênico ao que é humano, tornando tudo massa fílmica, essa continuidade do plano ainda torna perene o que se vê, o que se representa narrativamente.

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O que se poderia argumentar contra Klondike diz respeito à forma como o filme encarcera seus personagens na ação, como a exercer uma dose de misantropia um tanto descuidada. Não há muito respiro para um encontro mais íntimo às histórias que se contam, ao situar o casal protagonista em um círculo de constante pesar e rancor. Ao redor de si está apenas a proximidade do horror constante, que não dá trégua para que algum micro afeto se estabeleça e funcione como algum ponto contrário. Ao invés disso, temos a reposição do que se entende como tortura, psicológica ou mesmo física, ao tirar sistematicamente todas as defesas que eles poderiam possuir, até deixá-los sem nada.

Klondike - A Guerra na Ucrânia
Divulgação

É uma jornada puramente física, onde as interpretações estão ligadas à ação direta e não à construção dramática. A dramaturgia em cena é centrada no movimento cênico do maquinário, e dos corpos humanos em deslocamento para seus espaços. Sua posterior adaptação para uma espécie de conexão humana se dá através de saídas ainda mais exploratórias, aí então envolvendo camadas de sofrimento ainda mais explícitas. Os dez minutos finais da produção são uma espiral ascendente de elevação do horror praticado nas entranhas da guerra. Não soa como dramaticamente desafiador um filme onde seus personagens apenas sofram, para além de qualquer outra característica.

O talento de Er Gorbach na elaboração imagética de seu filme, no entanto, coloca ‘Klondike’ em posição de destaque, porque a cineasta demonstra inteligência no olhar para o produto. Isso aliado à urgência temática e do grau de denúncia que é apresentado, eleva seu material para longe da decepção. Na verdade, há muito o que ser ouvido a respeito desse material, e sua autoralidade está demarcada com ênfase, ainda que algumas saídas soem equivocadas ao olhar para o todo.

Um grande momento
A tentativa de ordenha

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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