Crítica | Festival

52 Terças-feiras

(52 Tuesdays, AUS, 2017)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Sophie Hyde
  • Roteiro: Matthew Cormack, Sophie Hyde
  • Elenco: Tilda Cobham-Hervey, Del Herbert-Jane, Sam Althuizen, Imogen Archer, Beau Travis Williams, Mario Späte, , Audrey Mason-Hyde, Danica Moors
  • Duração: 114 minutos
  • Nota:

Descobrir-se, encontrar-se, entender-se, assumir o seu papel no mundo. O privilégio de ter nascido com um gênero em conformidade com o sexo biológico não deixa que entendamos o que se passa com o outro. 52 Terças-feiras, também exibido no Brasil com o nome de Toda Terça-feira, mergulha nesse despertar da empatia, ao adentrar no universo da transgeneridade e nas mudanças que isso traz para a própria pessoa e para aqueles que estão próximos a ela. 

A diretora Sophie Hyde, que assina o roteiro ao lado de Matthew Cormack, cria uma dinâmica especial para sua história, que acompanha a relação de mãe e filha durante um ano, registrando seus encontros às terças-feiras. O filme apresenta uma família diferente do imposto padrão tradicional e é justamente na quebra de dogmas e conceitos que se agiganta.

52 Terças-feiras

Não é possível definir muito bem qual é a primeira ruptura já que todas são igualmente relevantes. Mas dentre todas as questões, inclusive a própria transição, há uma quebra muito afrontosa ao sistema patriarcal que nos oprime: o momento em que a mãe, um homem trans, diz que quer passar pelo processo sozinha e pede que a adolescente se mude para a casa do pai.

Em uma sociedade calcada na culpa cristã, que enxerga as mulheres como as reprodutoras a quem cabe o dever de cuidar, esse é um passo importante no interesse de desconstrução de 52 Terças-feiras. Quem conta a história é a filha, Billie, uma adolescente que está descobrindo a própria sexualidade e não entende muito bem o afastamento e menos ainda a transição da mãe.

52 Terças-feiras

As terças-feiras são marcadas por curiosidade, revolta, medo, tristeza, afrontamento, carinho, incompreensão. Em 364 dias, aqueles encontros semanais são tão intensos que dão a impressão de terem se passado em uns cinco, no mínimo. Hyde destaca esse passar do tempo, literalmente com vários relógios, e figurativamente com os registros de Billie, que em seus vídeos amadores pontua momentos históricos, registra suas descobertas e desabafa.

Há habilidade no modo como o emaranhado de relações é disposto. James, mãe de Billy, mora com Harry, seu irmão gay que fica com a filha pequena uma vez por mês. Billie, até o começo da transição, mora nas casas de James e Tom, seu pai biológico, num esquema de guarda compartilhada. É importante para a trama, muito interessada nos encontros de Billie e James, que exista essa diversidade de lugares e afetos. 

52 Terças-feiras

Porém, mesmo com a narrativa bem desenvolvida e inserções esteticamente inspiradas, 52 Terças-feiras tem algumas quebras e facilitações complicadas, com inserções de tomadas desnecessárias, como  a da manhã Lisa, namorada de James, e a apelação a um melodrama forçado, como o evento de Tom. Falta confiança de que o filme poderia resolver-se sem isso. 

Há ainda uma irregularidade nas atuações da dupla central, ainda que atenuada pela química. Del Herbert-Jane, que se identifica com o gênero não-binário fora das telas, vive o trans James e intercala momentos inspirados, eficientes e inseguros. Diferentemente de Tilda Cobham-Hervey com sua Billie, em uma composição mais constante.

52 Terças-feiras

Mas nada disso compromete o resultado final. 52 Terças-feiras é um filme não só importante por sua temática, mas uma obra de ficção consciente e bem elaborada. Seja nas divagações de Billie e no contraste com o diário de James, o filme encontra a leveza para demonstrar que há coisas que nunca mudam, entre elas, o afeto.

Um grande momento
Esperando na porta.

[5º Festival Internacional LGBTI]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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