Crítica | Streaming

7 Mulheres e um Mistério

Passatempo requintado e requentado

(7 Donne e un Mistero, ITA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Alessandro Genovesi
  • Roteiro: Alessandro Genovesi, Lisa Nur Sultan
  • Elenco: Margherita Buy, Diana Del Bufalo, Sabrina Impacciatore, Benedetta Porcaroli, Micaela Ramazzotti, Luisa Ranieri, Ornella Vanoni
  • Duração: 80 minutos

Assistir a um filme tendo a certeza que já conhece tudo aquilo ali, aquele enredo, aquela ambientação, aquele clima. A Netflix fez isso há duas semanas atrás, quando Natal Outra Vez? sorrateiramente mostrou-se na uma versão com poucos arremates de Tudo Bem no Natal que Vem, sucesso com Leandro Hassum. Novo sucesso da plataforma, 7 Mulheres e um Mistério faz sentido ao terminar, e sermos informados de que se tratava de um remake de 8 Mulheres, um dos mais comentados filmes de François Ozon. A ideia é a mesma, os lugares dos personagem idem, e o que resta ao espectador é torcer para, como eu, lembrar do filme francês sem muitos detalhes, para curtir a totalidade deste passatempo inofensivo. 

A reconstituição estética é muito bacana de observar. Não se trata necessariamente de um filme passado em outra época, mas talvez esteja propositalmente descolado da realidade. Ou de uma leitura do naturalismo mais vigente, trazendo à tona códigos de um cinema de estrutura demarcada e ligado ao artifício. Aqui, a ideia da comicidade é o cartão de visitas, e o filme cresce quando não exigimos dele um olhar comum. Isso porque a ideia de 7 Mulheres e um Mistério é exaltar esse recorte fake através da encenação, ao conectar tantas abordagens agudas. Está tudo à flor da pele em cena, e não estou falando apenas dos sentimentos provenientes em cena, mas do universo que o cerca, dos tipos que o compõem e da verdade de cada um, derramada. 

7 Mulheres e um Mistério
Netflix

Trata-se de uma produção italiana, dirigida por por um hitmaker local, Alessandro Genovesi, e que foi lançada nos cinemas locais pela Warner Bros., ou seja, existia um potencial comercial visto e apostado, ali. Aos 50 anos, o diretor investe em um produto mais requintado do que as comédias populares em que ele costuma arrasar quarteirão. Por mais que a abordagem seja bem menos simples que a moldura, 7 Mulheres e um Mistério tem uma concha cheia de elementos para o culto. Se não acontecer, os fatores são a própria questão da releitura por outro país, e do filme estrear justamente no auge do sucesso de Glass Onion, e ele se perder em um encontro menos espetacular com o público. 

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A extravagância do filme acaba por transformar o título cotado ao Oscar e dirigido por Rian Johnson em uma produção até discreta. Aqui, a ideia é carregar o espectador para dentro de um universo quase fabular, durante uma nevasca e passado praticamente em um único ambiente – o imenso salão de um semi-castelo. Tudo é tratado no limite do bom gosto, sem parecer cafona ou exagerado; exatamente como no Ozon, há uma preocupação em tornar aquele campo ainda acessível ao público médio, sem agredir ninguém ao aferir excessos. Por isso, há um equilíbrio nessa tentativa de estetizar uma produção cuja natureza já puxa para um olhar nada naturalista, e assim conseguir agradar a muitos públicos ao mesmo tempo. 

7 Mulheres e um Mistério
Netflix

Trata-se de um filme que não quer ferir maiores suscetibilidades, e se mantém neutro dentro de uma esfera plenamente reconhecível. Genovesi filma seus tipos muito bem decalcados de estereótipos – a empregada abusada, a avó atrevida, a mãe a um passo da ousadia, a filha rebelde, etc… – e os coloca em uma trama de investigação que na verdade só quer desfilar essa ideia de gênero, gerando entretenimento a partir daí. Essa é a intenção principal de 7 Mulheres e um Mistério (que fez sucesso nos cinemas locais, mas isso não animou o streaming a tentar um lançamento nos cinemas no resto do mundo), um sucesso da Netflix com algum pedigree, que serve para o que se propõe durante aquele tempo específico, e passar para o próximo.

Um grande momento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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