Crítica | Outras metragens

80.000 Anos

Adeus ao passado

(80 000 ans, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Christelle Lheureux
  • Roteiro: Christelle Lheureux
  • Elenco: Aurélien Gabrielli, Andy Gillet, Laetitia Spigarelli
  • Duração: 28 minutos

“Não tenho mais interesse em cavar em busca de coisas mortas”

Assim Céline definiria sua atual relação com a arqueologia, desgastada e cambaleante, prestes a sucumbir diante da análise da própria em relação a si mesma, mas não somente. Esse é um ponto de partida importante na narrativa de 80.000 Anos, curta francês dirigido por Christelle Lheureux e parte integrante da 5a edição do Festival Ecrã. O desinteresse da protagonista não é súbito, mas existencial e particular, como um acerto de contas que a própria não consegue elaborar consigo mesma.

Céline tem essa rememoração constante com o passado não apenas pelo que exerce enquanto ocupação, mas porque precisou voltar para casa a trabalho, e sua história passa a se confundir com como ela interage com a História. Escolheu para si o ato de embrenhar-se no passado para revelar seus mistérios, mas (ou seria “por quê?”) não consegue criar uma relação positiva com sua temporalidade. Céline compreende uma estratégia bizarra para si, atraída e amargurada pelo que a formou.

80.000 Anos
Cortesia Festival Ecrã

Ao não conseguir interagir com suas emoções, a protagonista dá a Lheureux a chance de afastá-la da narrativa do qual ela mesma serve – como? Retirando-a do plano conjunto com qualquer outra forma. 80.000 Anos quase em sua totalidade tem seus planos divididos em dois, onde ora vemos o contraponto da ação, ora um plano responde às inquietações e delírios do outro. Ao evadir sua figura central do plano para estabelecer um contato com o abstrato da imagem, a autora desloca também o desenho de sua personagem para um lugar irreconciliável.

Ao mesmo tempo em que se prepara para negar a importância da História, distanciando-se do lhe constitui como profissional, nas entrelinhas Céline explora atos passados. Ela tateia sua adolescẽncia ao desarvorar por onde estudou, cria um laço fictício com alguém que lhe transporta no tempo, persegue um fantasma por sonhos e realidades em busca de um perdão que lhe apazigue. Toda a sua (r)evolução interna parece depender de um acerto de contas que nem ela mesma sabe em que plano poderá travar.

80.000 Anos
Foto: Reprodução

A condução e a construção de uma narrativa até viciada do cinema é o que eleva o material apresentado, aqui adepto de silêncios, deslocamento espacial, encontros surrealistas e um desfecho de camadas múltiplas, que permanece reverberando mentalmente bem depois do seu término. O requintado trabalho de montagem, que intercala em um mesmo take tempos, personagens e realidades distintas, é um achado tão simples quanto autoral, até ousado.

A disposição para tratar os próprios fantasmas, as tentativas emocionais de fuga de um espaço que não julgamos capazes, e a forma como a mentalidade é um elemento vivo que organiza nossas tretas do passado, do presente e do futuro para dar forma e solucionar seus impasses, é o lugar de distorção desse delicado pomo sobre as ramificações de uma personalidade em colapso afetivo, em conflito com erros que a memória precisa desencavar.

Um grande momento
Sorvete de ruibarbo

[5º Festival Ecrã]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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