Crítica | StreamingDestaque

Rua do Medo: 1666 – Parte 3

Gran finale?

(Fear Street: 1666, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Leigh Janiak
  • Roteiro: Phil Graziadei, Leigh Janiak, Kate Trefry
  • Elenco: Kiana Madeira, Elizabeth Scopel, Benjamin Flores Jr., Randy Havens, Julia Rehwald, Matthew Zuk, Fred Hechinger, Michael Chandler, Sadie Sink, Emily Rudd, Olivia Scott Welch, Lacy Camp, McCabe Slye, Ashley Zukerman, Jordana Spiro, Jeremy Ford
  • Duração: 112 minutos

“Antes do último suspiro de vida dar, ela descobriu como da morte escapar”

Dando por encerrado (será?) o banho de sangue e de nostalgia de Leigh Janiak na Parte 1 – 1994, Parte 2 – 1978 e agora com essa terça parte, de volta para 1666, Rua do Medo se torna uma febre com hype justificado na Netflix.

Na Parte 3 – 1666, sem mais delongas, de cara, a verdadeira história da maldita Sarah Fyer é descortinada pelos olhos de Deena. A trama se desenrola em duas partes, com uma edição eficiente, assegurando os elos de ligação entre as linhas temporais, as mortes e o encaixe das pedras no quebra cabeça sobre a maldição que paira em Shadyside.

Ainda que o terceiro ato e o consequente desfecho seja irregular (com direito a uma verdadeira cratera no clímax), o roteiro de Rua do Medo – 1666 sustenta e resulta em bom entretenimento com uma pegada histórica que ecoa na polarização que persiste na contemporaneidade. Afinal, a trama se baseia na rivalidade entre os mocinhos de Sunnyvale e os bandidos de Shadyside, que tem suas origens no século XVII, quando o loteamento se chamava Union.

Rua do Medo: 1966 - Parte 3

“Goode is evil”

Em cerca de 50 minutos de filme, todo o mistério é desvendado e as peças se unificam harmoniosamente. Até aí Rua do Medo – 1666 seria perfeito se não fosse por uma certa afobação de Janiak, afinal é muito melhor deixar a audiência ligar os pontos por si e não pegar na mão e ir apontando onde cada um deles estão. Porém, esse erro não compromete o todo, já que essencialmente explorar as limitações e a potencial destrutividade do espírito humano por meio dos Devils de Sunnyvale, os ambiciosos Goode, fundamentalmente é um acerto.

Rua do Medo – 1666 traz o julgamento das bruxas de Salem para um produto da cultura pop, resultando num fechamento de arco dramático bem feito. Para as novas gerações, tomar contato com mais uma narrativa ancorada na intolerância, na hipocrisia e na ignorância que provocou a caça às bruxas mais mortal realizada na América do Norte é significativo. Histeria em massa, o medo dos próprios pecados e nada que envolva influência demoníaca resultou em tragédia. As vítimas? Em sua maioria, mulheres consideradas diferentes. Diabólicas. Cordeiros levados para o matadouro para limpar os pecados do mundo, ofertadas. Anátemas. Esther Prynne. Elizabeth Miller. E Sarah Fryer.

Rua do Medo: 1966 - Parte 3

“Cima, cima, baixo, baixo. Esquerda, direita, esquerda, direita, B, A, Start”

Uma cidade cheia de pessoas ruins, tocadas pelo diabo? Na verdade condenados e jogados no moedor de carne, os moradores mal sabem que uma linhagem familiar era a responsável por convocar o mal. Seja no povoado, no acampamento ou no shopping, o maligno se nutre nas profundezas, alimentado por homens que profanam a terra. Mas como toda a nerdice de qualidade, o que Rua do Medo traz, seja em 1994 e 1978 — com trilhas sonoras e ambientações que tem o poder de transportar imediatamente para a época — são momentos saborosos que referenciam tantos outros títulos importantes da história do cinema de horror como Pânico, Premonição, O Massacre da Serra Elétrica, Cemitério Maldito, Poltergeist e A Bruxa.

Tem também as luzes neon e o shopping de cidade pequena como em Stranger Things, o grande hit da Netflix — só que apenas esse terceiro filme é muito melhor que toda a terceira temporada.
E é claro, as citações, especialmente do personagem Josh, que vão da utilização de nicknames e atalhos em canais de comunicação como o mIRC, ali nos primórdios da internet, ou o mantra que ele repete e até ensina pra irmã na forma do código secreto da Konami (e em uma das cenas do primeiro filme, ele inclusive joga um dos títulos mais famosos da fabricante de games, Castlevania) são preciosidades.

Indo além da homenagem, Janiak buscou na coleção de livros com dezenas de volumes feitos para o público juvenil, algo semelhante com a coleção Vagalume aqui no Brasil, o espírito presente obras de R. L. Stine, sacando um personagem e outro para compor uma adaptação que fizesse justiça ao que de mais instigante, assustador e emocionante a saga tinha.

Rua do Medo: 1966 - Parte 3

“A bruxa vive para sempre”

Deena inclusive utiliza um colete feito a partir dos livros da saga “Rua do Medo”. E que bom que o casal de lésbicas não tem um final triste para variar. Elas são realmente as netas das bruxas que não conseguiram fazer perecer, ainda que tenham queimado. Elas protegem suas descendentes e têm a sua vingança.

Fazer uma sessão dupla de Invocação do Mal 3 e os três títulos de Rua do Medo é uma boa pedida, o que dá uma ajudinha para explicitar como a mão da ganância do homem opera e desmistificar a visão judaico-cristã sobre espíritos, fantasmas e demônios.

Além de dirigir com competência, Leigh Janiak é uma dos roteiristas da trilogia, junto com um time que aborda de forma bem satisfatória o tropo dos filmes sanguinolentos de assassinos seriais e vingança sobrenatural. Ainda a continuar se a Netflix assim decidir reabrir o livro das trevas.

Um grande momento
“Eu nunca vou deixá-lo em paz”

Fotos: Netflix

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
Botão Voltar ao topo