Crítica | Streaming

Rua do Medo: 1994 – Parte 1

Tríplice nostalgia

(Fear Street Part 1: 1994, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Leigh Janiak
  • Roteiro: Kyle Killen, Phil Graziadei, Leigh Janiak
  • Elenco: Kiana Madeira, Olivia Scott Welch, Benjamin Flores Jr., Julia Rehwald, Fred Hechinger, Ashley Zukerman, Darrell Britt-Gibson, Maya Hawke, Jordana Spiro, Jordyn DiNatale
  • Duração: 105 minutos

Existem duas formas de analisar Rua do Medo, o projeto de trilogia que começa a chegar hoje na plataforma da Netflix e é o seu principal evento do mês. Uma situação não anula a outra, mas são evidenciadas quando colocadas em perspectiva. Isso porque não se trata apenas de um filme, o tal Rua do Medo: 1994 que estreou hoje, mas duas situações em uma: temos uma produção X, com suas questões intrínsecas e particulares, cuja olhar precisa ser relativizado enquanto obra única, e existe a produção maior, muito mais ampla que essa estreia de hoje. Ou seja, esse que vos escreve ficou encarregado da pior parte: tentar destrinchar uma obra que se encerra hoje por um lado e apenas começou hoje por outro.

A trilogia é inteiramente dirigida por Leigh Janiak, que tinha apenas o elogiado Honeymoon no currículo e agora apresenta a adaptação da série de livros homônima, assinada por R. L. Stine, e que aqui estão interligadas por um evento maior. Ou seja, não se trata de uma mera antologia de terror onde um espaço, uma cidade ou uma alegoria se tornam a referência para o contexto geral, mas de um evento que une todos os capítulos, e que só será devidamente solucionado na gênese do mesmo, exatamente a terceira parte a ser lançada em duas semanas. Independente do projeto maior, há um menor que define cada um dos longas como uma obra independente.

 Rua do Medo: 1994 - Parte 1

Nesse quadro específico, Rua do Medo: 1994 é um longa que diverte acima de tudo, o que pode ser um sintoma escolhido por sua diretora, o entretenimento descompromissado que obviamente referencia o slasher adolescente de high school dos anos 80/90, com uma picardia que marca a evolução do nosso tempo inserido nele – seu casal protagonista são duas meninas lésbicas recém separadas e ainda magoadas uma com a outra. Um terceiro personagem claramente também flerta com o LGBTQIA+ de maneira muito cuidadosa e natural, o que coloca a produção em lugar especial para os tempos de afirmação de liberdade de orientação sexual.

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Entretenimento garantido, Janiak e seus roteiristas (Kyle Killen e Phil Graziadel) não tentam ir muito longe dessa questão, utilizando clichês que, se não chegam a incomodar, também não retiram o filme de um lugar que já foi visto com frequência, não apresentando nada de substancialmente novo na jornada do quinteto central – iniciação sexual/emocional, aquela tradicional perseguição entre psicopatas e vítimas, etc – até percebermos um ritmo relativamente desajustado, na montagem não muito eficaz de Rachel Katz, que deixa claro tempos mortos nada agradáveis ao cinema de gênero.

 Rua do Medo: 1994 - Parte 1

Em outro plano, Rua do Medo também é uma trilogia que aparenta agregar muito mais predicados quando pensada em conjunto, no coletivo de suas produções. Isso justificaria o pouco alarde que é dado ao desfecho de seus personagens, com uma naturalidade pouco comum mediante o que acontece; quando a narrativa permitiria e necessitaria de uma reflexão e uma pausa dramática, o filme parece querer se encerrar e passar “para a próxima fase”. Não é aconselhável, portanto, chegar a conclusões definitivas em relação ao projeto a essa altura, principalmente quando há uma prévia saborosa aguardando o espectador antes dos créditos.

Um plus nostálgico com uma produção ambientada trinta anos antes poderia ser melhor aproveitado, com a ausência de computadores, celulares, tecnologia de ponta, mas isso é diminuído como um todo, restando apenas o sabor indiscutível de ouvir “Only Happen When it Rains” do Garbage e “Creep” do Radiohead (ok, ambas são mais do que mastigadas para retratar os conflitos da adolescência, mas o que importa é a qualidade de ambas, aqui) em cena. A ausência de pais e responsáveis deixa o filme com um sabor de Scooby-Doo que também realça essa nostalgia fugaz.

 Rua do Medo: 1994 - Parte 1

A preocupação com a unidade do projeto, que foi todo realizado pela mesma equipe, é a prova do comprometimento do mesmo para com seus resultados, e a tarefa de Janiak era prender a atenção do espectador, e instigá-lo por um total de três semanas. Tarefa cumprida, Rua do Medo:1994 não revoluciona o mercado, mas deixa uma porta escancarada de interesses para que o projeto, quando no fim do mês for inteiramente pensado, pareça muito maior do que suas partes unitárias. É o risco que se corre quando uma ousadia como essa ganha as telas.

Um grande momento
Os banheiros da escola

Fotos: Netflix © 2021

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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