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Rua do Medo: 1978 – Parte 2

História para contar na fogueira

(Fear Street Part Two: 1978, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Leigh Janiak
  • Roteiro: Leigh Janiak, Zak Olkewicz, Phil Graziadei
  • Elenco: Gillian Jacobs, Matthew Zuk, Kiana Madeira, Benjamin Flores Jr., Olivia Scott Welch, Sadie Sink, Brandon Spink, Chiara Aurelia, Marcelle LeBlanc, Eden Campbell, Ted Sutherland, Michael Provost, Drew Scheid
  • Duração: 109 minutos

Estamos de volta a Shadyside. Se a primeira parada foi em 1994, agora estamos nos anos 1970. Rua do Medo – Parte 2: 1978 retorna ao passado para concluir aquilo que ficou não resolvido no primeiro filme. A atmosfera, completamente diferente, vem confirmar aquilo que Leigh Janiak pretendia com seu ousado projeto de homenagear o cinema de horror com uma uma trilogia inspirada nos livros rápidos de R. L. Stine.

Características individuais dos personagens à parte, a premissa básica se mantém: uma maldição ancestral encontra céticos e crentes pelo caminho e deixa uma trilha de mortes sangrentas. Por trás dos dois títulos já disponíveis: a adolescência pontuando a época. O terror, de maneira geral, é um gênero muito ligado à realidade de seu tempo, a cada geração (ou, por vezes, períodos temporais mais curtos), novos elementos surgem e transformam-se em marcas registradas. E aí está o que mais se destaca em Rua do Medo: 1978.

Rua do Medo: 1978

Se o filme anterior remete ao resgate do slasher, aquele que vimos com Pânico e afins, numa explícita crítica à sociedade de consumo, com muitas menções capitalistas e óbvias, com shopping center ou supermercado; aqui o interesse está em um outro momento do splatter, o que se tornou célebre com Jason Voorhees, e a trama se desenvolve em um acampamento, de olho na juventude pós-contracultura, que se divide entre os que buscam um futuro adequado a um padrão homogeneizado e os que querem contestar não se sabe muito bem o quê. Uma dicotomia que, de certo modo, define a persistência daquele reflexo Sunnyvalle x Shadyside.

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A disputa entre as cidades persiste, mas encontra aquele ambiente de gincana característico. O sexo — com direito à consequência gore natural — e o bullying, ressaltando a pertinência etária, direcionam muitas das ações e das reações. Os dois primeiros filmes de Rua do Medo se esmeram na construção desse universo juvenil saudosista, mas, em 1978, há mais precisão. E tem a vantagem de ter mais espaço para acessar um outro mundo fantasioso que direciona o filme.

O ponto de partida da trilogia é muito promissor. Quando fala de sociedade e monta seus dois primeiros episódios relacionando-os com momentos muito marcantes do cinema de horror para depois partir para algo de inspiração rural, com a mais tradicional das narrativas de assombração: a por maldição, e remonta à perseguição às bruxas, Janiak, que entregou os dois primeiros filmes a trios diferentes de mulheres fortes, tem a chance de chegar a um lugar muito promissor.

Rua do Medo: 1978

A diretora é bastante habilidosa na construção do suspense. Com um cinema de público, feito no exagero, ela pesa na trilha, brinca com flashes de assombrações de um passado ainda não visto e joga com a pouca luz. Aliás. é possível perceber a sintonia entre ela e o diretor de fotografia Caleb Heymann, que, independentemente de qual passado esteja retratando, resgata referências e cria quadros bem interessantes.

Bem mais redondo que o seu antecessor Rua do Medo: 1978 ainda tem os problemas de ser um filme que faz parte de um projeto pensado para ser único e, assim, não se inicia e nem se conclui em si mesmo. Mas, para aqueles que aceitam e entram na brincadeira, há muita coisa para se divertir: o resgate do horror, a viagem pelo gênero, personagens carismáticos e um jeito de “conto de fogueira” que conquista de cara.

Um grande momento
“Por que você morre, porra?”

Fotos: Netflix © 2021

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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