Crítica | Cinema

Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio

À sombra do amor de Ed e Lorraine

(The Conjuring: The Devil Made Me Do It, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Michael Chaves
  • Roteiro: David Leslie Johnson-McGoldrick
  • Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ruairi O'Connor, Sarah Catherine Hook, Julian Hilliard, John Noble, Eugenie Bondurant, Shannon Kook, Ronnie Gene Blevins, Keith Arthur Bolden, Steve Coulter, Vince Pisani, Ingrid Bisu, Andrea Andrade
  • Duração: 112 minutos

A diferença dos exemplares da série Invocação do Mal do geral das produções típicas do horror (e até dos muitos spin-off que já renderam, de todos os Annabelle até A Freira) é ir além da já tão celebrada qualidade empregada em cada exemplar, a cargo do capricho do diretor James Wan. É, acima de tudo, a história do casal Lorraine e Ed Warren que é vendida sempre, não apenas do que uma sinopse vazia poderia chamar de “as aventuras dos Warren”, mas principalmente complexificar a relação que existe entre esses dois em meio aos tais feitos que os tornaram célebres, sempre colocando sua relação no cerne da narrativa, em paralelo a qualquer que seja o caso. Em Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio, sua história também tem o peso de protagonista, quase deixando o caso a solucionar como pano de fundo.

Ao espectador, que acabou por acompanhar com interesse e afinco o sucesso das produções, coube se envolver com o casal, e acompanhar seu desenvolvimento próprio, tão sedutor quanto os horrores que testemunharam ao longo dos anos e do trabalho como investigadores do além. Como o amor e a união do casal os ajudou a superar os medos, e como as agruras pelo qual esbarram não podem também se configurar como metáforas de um casamento de muitos anos já dilacerado pelo tempo, ainda que o sentimento prevaleça. A cada novo episódio, suas vidas parecem correr mais perigo, e sua história parece cada vez mais ameaçada, dessa vez até esbarrando em temática tão atual. 

A troca de Wan na direção por Michael Chaves (de A Maldição da Chorona) pode espantar a primeira vista, mas o criador do universo continua produzindo e desenvolvendo o projeto, além de roteirizar junto de David Leslie Johnson-McGoldrick, que já escreveu o episódio anterior, além de Aquaman e A Órfã. Isso significa que a queda qualitativa nem está necessariamente ligada a seu afastamento da cadeira, mas que Invocação do Mal, a série, nos acostumou muito mal. Um filme bom como esse novo soa insuficiente aos padrões que os episódios anteriores nos apresentaram, ainda que o capricho com o desenho dos personagens, com o campo estético e com a textura de gênero ainda estejam a postos. 

A série continua também a apresentar o senso de humor muito pontual e isolado que envolvem seus casos anteriores, dessa vez realiza uma muita explícita homenagem ao O Exorcista original de William Friedkin, e a história de Lorraine e Ed tem um aprofundamento que chega à sua juventude, arvorando um arco pessoal do casal e jogando o espectador em uma tríade de eventos. No entanto, sua história pessoal é o grande chamariz da vez, e gradualmente ela ocupa o espaço principal do segmento. Não seria um problema se o espectador simplesmente não perdesse em absoluto o interesse pelo caso que seria o principal. Mas seria mesmo?

Como já dito, o principal problema aqui é o padrão elevado ao qual a franquia nos acostumou, uma verdadeira sinfonia onde cada elemento parecia encontrar sua afinação adequada. O novo episódio fica abaixo desse tal padrão, o que ainda assim é suficiente para classificá-lo acima da média, e mais uma vez o fiel da balança é o casal Vera Farmiga e Patrick Wilson, cada vez melhores em sua incorporação dessa família nada comum. Se oito anos depois do casal Warren ter surgido pela primeira vez no cinema ainda estamos curiosos em seu habitat, metade do trabalho nasce da química entre ambos e da categoria com que é desenhada essa relação. 

Co-estrelado por Ruairi O’Connor (de Postais Mortíferos), Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio pode não estar no mesmo patamar dos longas anteriores, mas é como se o bolo tivesse ficado sem cereja em cima. É uma boa direção, é um roteiro bem desenvolvido, tecnicamente é atraente (a direção de arte de Jennifer Spence é um capítulo à parte), mas não é a direção excelente, não é o roteiro praticamente sem pontas soltas, não é impecável em sua embalagem. Isso é notado com facilidade. Mas quando o filme sutilmente costura um olhar para as pequenezas que constroem as inúmeras violências diárias contra a mulher, o todo cresce. 

Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio

É quando olha pro íntimo que o filme ganha seu espaço. Quando se debruça no amor não apenas entre Ed e Lorraine, mas também entre Arne e Debbie, que sua categoria volta a fazer presença, deixando uma sombra ameaçadora sobre o gênero, que se alimenta desse cuidado mas não corresponde com os códigos do gênero. Não é a toa que “Call me”, do Blondie, tenha uma presença tão marcante no filme, mostrando sua tendência ao que não estão exposto de maneira ostensiva. Na busca pelo coração dos Warren, o filme desvaloriza o que os eternizou – ficaram os amantes, e talvez isso seja o suficiente para a série… para Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio, faltou. 

Um grande momento
Colchão d’água

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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