- Gênero: Drama
- Direção: Jennifer Reeder
- Roteiro: Jennifer Reeder
- Elenco: Marika Engelhardt, Tim Hopper, Kate Arrington, Audrey Francis , James Vincent Meredith, Ty Olwin, Grace Smith, Ireon Roach, Raven Whitley, Kayla Carter, Jalen Gilbert, Emma Ladji, Robert Cunningham, Tony Fitzpatrick, Marilyn Dodds Frank
- Duração: 111 minutos
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How does it feel to treat me like you do?
Três universos diferentes. Três universos que o mundo, esse ambiente tão fracionado e disposto em caixinhas, tão marcado por permissões e negativas determinadas pelo masculino, definiu que seriam incomunicáveis. Joanna, Charlotte e Laurel. Separadas, diferentes, estranhas, até que algo muito maior — ainda que usual, batido, que se vê todos os dias e em todos os lugares — vem para abalar a configuração e mostrar que as estruturas não estão com nada. Se o contexto é tão próximo em Knives and Skin, forma e fórmula são o contrário.
Com o desaparecimento de Carolyn, os atos se tornam evidentes e os pequenos núcleos da cidade do interior começam a se esfacelar enquanto as jovens florescem. O corpo que não se vê e não se acha, assombra o local trazendo uma espécie de conscientização. E se para uns vem a consciência, para outros o que chega é o deslocamento ou mesmo a reação. Tudo é ao mesmo tempo óbvio e chocante, triste e transformador. O assédio que esgueira, o respeito que não existe, a confiança que não se deposita. Seria só a vida aqui do bairro, ou ali daquela vila representada não fosse todo o estilismo que afasta o realismo.
Muitas luzes, cores e filtros determinam ambientes e sentimentos. Jennifer Reeder em sua representação alucinada do se perceber mulher e tornar-se dona de si quer fazer sentir. Ela busca formas, símbolos, brilhos que provoquem a memória e tragam ao espectador os padrões impostos, aqueles que passam a ser questionados. Fundamental na definição das próprias personagens, a performance adquire um papel importante. Há muita atenção aos contrastes e levar isso no ambiente escolar é, ao mesmo tempo, algo que enriquece e facilita a construção do universo de Knives and Skin.
Há uma infinidade de coisas positivas no filme e a maior parte delas está no modo como ele consegue representar a pluralidade, como traz para um universo específico questões que serão abordadas e sentidas de milhares de maneiras completamente distintas. Ao assegurar a multiplicidade, por mais idiota que isso pareça, Reeder faz muito e consegue criar uma realidade intrigante. Mesmo que um ou outro personagem pareçam mais deslocado, todos estão tão integrados àquele contexto que têm o seu motivo para serem pesquisados de perto.
Knives and Skin ainda ganha pontos extras pela intimidade com que trabalha com o pop e tem na música um dos símbolos dessa relação. Passagens como “Blue Monday” ou “Promises, Promises” são incríveis. Porém, apesar de todos os acertos, dona de sua verdade e do ambiente que formulou para sua trama, a diretora se perde na empolgação estética. Não que o que crie não seja belo e impactante. É. Mas em sua fissura por chegar aos delírios passa um pouco do ponto e, pode, por vezes, cansar.
Mas, por nenhum momento, qualquer deslize que haja neste caminho invalida a jornada dentro deste esse manifesto feminista neo-lynchiniano que surge no meio de um nada que é tão contaminado de tudo que estamos cansados de ver todo dia. E a Carolyn de hoje foi a Laura de outro dia, mas chegou para transformar tudo. Porque a barbárie e o machismo querem que tudo permaneça igual, mas o mundo mudou. Os universos distintos sabem quando e como são mais fortes e resolveram que, de agora em diante, cuidam um do outro e vão brigar juntos.
Um grande momento
“Promises, promises”