Crítica | Streaming e VoD

Donzela

Em busca da ação

(Damsel , EUA, 2024)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Juan Carlos Fresnadillo
  • Roteiro: Dan Mazeau
  • Elenco: Millie Bobbie Brown, Ray Winstone, Angela Bassett, Brooke Carter, Nick Robinson, Robin Wright
  • Duração: 105 minutos

Se tem algo que chama muito a atenção em Donzela, sucesso atual da Netflix, é uma preocupação com a construção da forma do que está se contando, sem precisar pensar e/ou depender do que o espectador final achará sobre o que está vindo. Isso tudo é algo intrínseco ao filme e suas molas propulsoras, ao que ele está querendo dizer, mas também independe da narrativa. É tudo muito simples na jornada que é mostrada aqui, o que se sofistica são os lugares onde o filme resolve se embrenhar sem necessidade, apenas com a visão de que o mínimo, nesse sentido, provoca uma saída do lugar comum, ainda que breve. Isso é o mínimo que se espera de uma produção criada para consumo em larga escala. 

O diretor Juan Carlos Fresnadillo foi indicado ao Oscar por seu segundo curta-metragem há 27 anos, e Donzela é sua primeira produção norte-americana de grande porte. Apesar da predileção por efeitos visuais, e isso está contido de maneira imensa aqui, o que marca nas suas escolhas é a forma como ele chega na situação mais fora do comum possível, e como ele resolve abraçar o que o levou até ali. Não deve ser simples entender que está diante de um produto feito para as massas, e propor uma sutil radicalização dentro do que é pretendido, ao manter sua protagonista afastada do contato externo por cerca de meia hora – ou mais – onde seu contato seja quase exclusivamente com os cenários, o CGI e a ação. Leia-se ‘quase sem falas’. 

Acho muito corajoso que a Netflix tenha permitido que um filme se concentre em algo tão sensorial, técnico e menos narrativo, ou cuja linha de roteiro se baseie em fisicalidade. Ao apostar em algo tão liberto de obrigações de ordem teórica, Donzela acaba por simplificar o que está tentando comunicar. Isso não é um problema em si, mas que seu caminho de fabulação saiu do lugar esperado para outro ainda pouco explorado. O resultado é um filme de nicho pouco explorado, onde o corpo de sua protagonista é posto à prova para responder aos estímulos de um jogo específico. Nesse sentido, o que acaba atrapalhando a produção é justamente o preâmbulo ao que vemos em seu miolo; nos interessa menos como a protagonista chegou ali, e sim como ela sairá dali. 

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Para Millie Bobbie Brown, essa é uma evolução natural de suas capacidades. De Stranger Things a Enola Holmes, a atriz traçava já essa linha de uma atuação indo do sensível ao introspectivo para se tornar uma heroína propriamente dita, com a corporalidade falando mais alto no campo final. Embora ela dê conta do que é necessário ser feito, suas muitas intervenções estéticas impedem o trabalho completo, porque sua idade é condizente com a personagem, mas sua aparência não se comunica com o que ela realiza. Com isso, Donzela tem um hibridismo no que está contando, a história de uma jovem prestes a se tornar real, que é atirada na realidade mais mundana e desesperadora possível. Está tudo muito claro na mensagem, mas isso tudo esbarra na aparência de Brown, que já não é mais a mesma. 

Existe um ponto interessante a ser colocado a respeito de Donzela, que é uma possível previsibilidade de eventos. Sim, rapidamente fica claro o encadeamento de ações, bem antes delas serem deflagradas, mas nesse caso específico vejo de forma positiva. Existe um estado de tensão que o filme trabalha por uns 15 minutos, mais ou menos, onde o espectador tem certeza de que algo muito errado está prestes a acontecer. É como se estivéssemos em uma montanha russa bem devagar, onde sabemos que os loopings virão, mas o brinquedo se encarrega de fazer aquele momento render um estado de caos mental por mais tempo do que era previsto. As sequências que precedem a queda da protagonista são muito bem orquestradas, porque nos colocamos como uma plateia que tenta impedir, em vão, as próximas ações; funciona muito bem. 

Em linhas gerais, a execução de Fresnadillo funciona muito bem na parte física, e o filme deixa mais a desejar quando isso é menos exigido em sua estrutura. Não se trata de algo pelo qual lembraremos no futuro, mas Donzela tem uma dose de adrenalina e um conceito de fábula desconstruída pelas imagens que se assegura enquanto passatempo escapista. E é nesse conceito que acaba por se tornar bem sucedido também. 

Um grande momento

À beira do precipício

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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