Crítica | Streaming

A Dupla Explosiva

Nova roupagem para a nostalgia

(Altrimenti ci arrabbiamo, ITA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Ação
  • Direção: YouNuts!
  • Roteiro: Paolo Fondato, Manuel Donato, Francesco Cenni, Vincenzo Alfieri, Giancarlo Fontana, Tommaso Renzoni, Giuseppe Stasi, Andrea Sperandio
  • Elenco: Edoardo Pesce, Alessandro Roja, Alessandra Mastronardi, Christian De Sica, Christian Monaldi, Francesco Bruni, Massimiliano Rossi.
  • Duração: 90 minutos

Não fui uma criança, particularmente um menino, que cresceu assistindo os filmes da dupla Terence Hill e Bud Spencer, uma espécie de patrimônio da comédia popular italiana dos anos 1970 e 1980, que tanto sucesso fizeram no Brasil. Seu misto de pastelão com telecatch e western spaghetti não estavam entre as preferências do pequeno que preferia filmes de terror a uma Sessão da Tarde mais masculinizada. Essa estreia da Netflix, A Dupla Explosiva, é uma reimaginação de um sucesso dos italianos originais, de 1974, que tanto barulho fizeram durante mais de duas décadas. Teriam eles orgulho do material novo, que os homenageia e também presta tributo à tirinhas de HQ da época, estilizadas e divertidas, enquanto tenta encontrar um novo público – e reencontrar o antigo?

YouNuts!, nome artístico da dupla formada por Niccolò Celaia e Antonio Usbergo, são diretores de videoclipes que já tentaram passos na direção de longas metragens no insípido O Sol de Riccione, aqui se sai ligeiramente melhor. Talvez por se apropriar de um universo mais visual, o material final soa próprio, com mais personalidade e com público alvo mais específico, ainda que amplo. Provavelmente fãs da dupla marcante da infância de tantos, os rapazes se utilizam da mesma inocência já vista em Hill e Spencer, um tipo de humor físico que se assemelha a um trabalho circense, aqui no Brasil foi imortalizado pelos Trapalhões. Essa é uma outra parcela do público a ser capitaneado, aquele saudoso do quarteto nacional que fez a fama durante o mesmo período que os italianos. 

A Dupla Explosiva
Lucky Red

Ao contrário de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, no entanto, tanto o original quanto essa releitura não se primam exclusivamente por uma graça necessariamente infantil. Ainda que sem qualquer teor mais violento ou despudorado, não se trata de um apelo direto aos pequenos. Ao menos não ao que é reconhecido como infanto-juvenil no mundo de 2022, completamente diferente do visto há 40 anos atrás. Trata-se de uma trama adulta, com bandidos “perigosos” – e tontos – e mocinhos muito valentes, tentando encontrar um meio de resolver igualmente os seus problemas e também tretas locais. Sim, é um produto sem contra indicação etária, e talvez o aspecto visual que remete aos quadrinhos revele um certo interesse nos pequenos.

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A Dupla Explosiva
Lucky Red

Ainda que particularmente não seja afetado pelo material sob qualquer ponto de análise, ao não me deixar levar por questões afetivas, acabo filtrando o sumo apresentado. Para o público afeito à rapidez do nosso tempo, creio que a velocidade de A Dupla Explosiva soe ainda longe do ideal. Existe sim a adrenalina empregada, e algum teor cômico imbuído em suas decisões imagética, mas esses atributos ficam longe do ideal para o contemporâneo. Ainda assim, sua montagem encontra a agilidade necessária para dinamizar o espetáculo de simples fruição. Se por um lado, o ritmo não parece encontrar respaldo no que é consumido pelas plataformas, esse lugar quase antiquado por onde sua narrativa corre pode sim atrair um outro público. Talvez falte equalizar os lugares essa atração possa ser melhor alcançada.

Já o elenco, esse parece ter compreendido tudo do projeto. Não há qualquer sinal de interpretação naturalista aqui, mas não é também o caso de importação de elementos cartunescos para dentro do universo. O que poderia ter de melhor em algo como A Dupla Explosiva – ter uma mão mais firme puxando suas cordas, que poderiam estar descontroladas e histéricas, ou abraçar o exagero que seria esperado pelas suas origens? O grupo de atores está no equilíbrio que o resto do projeto não parece ter encontrado. Todos têm momentos para mostrar seu potencial, seja lá pra que lado forem suas conotações, mas nunca extrapolando os limites. É um bom senso raro de alcançar, porque existia a possibilidade de chutar o pau da barraca e isso estar dentro de um quadro de normalidade do projeto. Em especial Edoardo Pesce, em sua leitura particular do que foi Spencer, chega a encantar em sua disposição para encontrar o balanceamento.

Um projeto tão fora do lugar comum como A Dupla Explosiva, dentro de uma bacia como a da Netflix, buscando entronizar no imaginário de hoje ícones pop do passado, sempre deverá ser recebido com entusiasmo, ainda que não tenhamos apenas acertos. Vindo de um momento onde não apenas o streaming está apertando as teclas óbvias, repetitivas e tão pouco imaginativas, o filme da dupla YouNuts! não se deixa contaminar pela mesmice. Seu erro foi não conseguir dosar sua ousadia, e apertar o freio quando deveria aloprar um pouco mais. Tivesse seguido um pouco mais os homenageados, teríamos uma recordação das mais felizes a respeito de um tempo que não é absolutamente hoje, nem absolutamente ontem.

Um grande momento
A primeira sequência

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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