Crítica | Cinema

Assalto na Paulista

Bordas mal aparadas

(Assalto na Paulista , BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Policial
  • Direção: Flavio Frederico
  • Roteiro: Mariana Pamplona
  • Elenco: Eriberto Leão, Bianca Bin, Dani Nefussi, Adriano Bolshi, Jefferson Brasil, Kiko Marques, Kaue Tezzoli, Luciano Riso, Ademir Emboava.
  • Duração: 110 minutos

Partindo de um acontecimento verídico, um assalto de proporções escandalosas – literalmente – acontecido no coração de São Paulo há mais de 10 anos, a estreia nos cinemas Assalto na Paulista prova que temos muitas histórias para contar da ordem do extraordinário. O cinema nacional está estruturado em cima de muitas vertentes em toda sua trajetória, mas existe um vácuo nessa seara, a dos acontecimentos policiais e/ou noticiáveis que saltam aos olhos nos jornais diariamente. Assalto ao Banco Central, lançado exatamente no ano em que aconteciam os eventos mostrados aqui, é um caso raro dentro de um sem número de acontecimentos que se apresentam para o público todos os dias, à espera de um roteiro que os desencantem. 

Flávio Frederico tem experiência com o gênero porque lançou Boca em 2010, que explorava a mitificação em torno da figura do bandido Hiroito de Moraes no submundo paulistano entre os anos de 1950 e 1960. Igualmente roteirizado por Mariana Pamplona como aqui, essa sua incursão anterior pelo mundo do crime lhe apresentou os caminhos para chegar até aqui, que se apresenta como um típico “filme de assalto”, mas acaba costurando outras situações ao seu longo. Esse é um gênero comum feito em inúmeras partes do mundo, e que trabalha com os episódios específicos que se ligam a sua espinha dorsal, o roubo em si. Assalto na Paulista, por sua vez, investiga seus dois protagonistas, indo até o passado de ambos, para nos mostrar como eles chegaram até ali, além de um com o outro. 

Quando o roteiro de Pamplona enfim esbarra no que seria a gênese desse grupo marginal, o encontro inicial entre Rubens e Leona/Regina, o longa observa com clareza sua força, seu norte. Estava ali a estrutura base para chegar até o cerne dessa relação, e de todas as outras que estão interligadas em tela. O filme não se furta em mostrar como as conexões entre seus personagens os uniu de maneira intrínseca, a cada baixa do elenco o sentimento de perda, o desespero com os passamentos, são críveis e palpáveis. Porque então o filme não tentou nos encorpar do interior desses seres, do que os uniu e dos motivos pelo qual tais despedidas são tão sentidas, é uma pergunta que o espectador se faz com frequência. 

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Assalto na Paulista
Divulgação

Ao invés disso, o roteiro é engordado para questões que agregam menos valor ao todo, como esses flashbacks específicos sobre a vida pregressa de seus dois protagonistas. Especialmente a primeira aparição da jovem Regina se dá de maneira absolutamente histérica, durante uma festa de debutante que é interrompida por um acontecimento aterrador completamente inexplicável, sob qualquer ponto de vista – inclusive os aspectos cinematográficos. Quando a personagem enfim encontra-se com o homem que serviria como uma sombra paterna tão violenta quanto a anterior, Assalto na Paulista serve de relance o que poderia ser. A história entre um homem que perdeu uma filha e uma filha que perdeu um pai, ambos em tragédias abissais, e que se encontrariam para nova jornada trágica, fica na intenção. 

Na tela, não vemos a tradução dessa simbiose tão interessante, que criaria camadas subtextuais para realçar dois destinos marcados pela violência. Ao seu redor, uma trupe de marginais visualmente muito interessante mostra que um laço de afeto os coloca em movimentos paralelos, dentro do desajuste que vivem. Infelizmente o roteiro prefere não dinamizar o seu foco principal, nem rechear de vida os avatares que o habitam – não passam de corpos ocos, carentes de justificativa para a ternura que os conecta na hora de cada morte. Estão todos muito bem embasados de suas intertextualidades, mas nada desse contexto vêm à tona na sua realização, com o espectador sem entender porque aquelas ocorrências estão na tela, ao invés de outras, que nos inteire de sua humanidade, para além dos clichês, ditados e lugares comuns que saem o tempo todo de suas bocas.

É claro que Assalto na Paulista se preocupa com seus personagens, embora não os leve para além de suas fôrmas. O que não se compreende, além dessas escolhas de enfoque, é a inclusão de uma trilha sonora intrusa a todo tempo, os enquadramentos desastrados em momentos cruciais, os planos absolutamente fechados que não nos permite encarar a gravidade dos episódios. Além disso, a falta de cuidado para com os extras em cena em muitos momentos, é mais uma demonstração de que Frederico tinha exatamente em mente o que gostaria de fazer. Esse foco era tão absoluto que não os permitiu observar que qualquer banquete não é feito somente do prato principal; ao redor do que era crucial à sua narrativa, ficou muitas rebarbas para serem aparadas, em roteiro e em direção. 

Um grande momento
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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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