Crítica | Festival

A Felicidade das Coisas

Momentos intimos

(A Felicidade das Coisas, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Thais Fujinaga
  • Roteiro: Thais Fujinaga
  • Elenco: Patrícia Saravy, Magali Biff, Messias Gois, Lavinia Castelari
  • Duração: 87 minutos

O risco de elaborar uma narrativa em torno do prosaico é um lugar já bem conhecido da Filmes de Plástico, produtora mineira responsável por um primor de contenção como Temporada. Thiago Macêdo Correia, produtor tanto dele quanto desse A Felicidade das Coisas, já trilhou o caminho das pedras da credibilidade para constituir nessa argamassa uma estrutura que se compreenda atraente, apesar das suas tintas restritivas ao público afeito ao non stop típico de um roteiro tradicional. Espera-se a apresentação do universo, seu desenvolvimento, o plot-chave… pois aqui não se concentra em algo dessa seara, subvertendo o olhar para um novo arranjo.

De textura delicada, a estreia em longas de Thais Fujinaga acompanha o mês de férias de quatro integrantes de uma família (mãe, avó e duas crianças, um menino e uma menina) durante as férias no litoral de São Paulo. Muito mais preocupado em flagrar momentos mínimos daquela convivência do que criar um processo repetitivo de prosseguimento narrativo, o longa possui uma característica do que de melhor o cinema brasileiro produz hoje: o interesse na fricção dos detalhes e a descoberta dos seres através de suas minúcias, mais do que situá-los em uma trama digamos convencional, com suas exigências específicas.

A Felicidade das Coisas
Cortesia Mostra SP Cortesia Mostra SP

O filme arvora suas implicações nos gestos fortuitos, nas elipses provocadas por telefonemas onde só ouvimos um lado, em conversas captadas em proposital distanciamento. Tudo isso para investigar a banalidade de uma família de classe média de configuração banalizada – Paula precisa da figura ausente de seu marido para alavancar uma obra externa (o sonho da piscina) e uma outra interna (o pesadelo do início da adolescência do menino), e através dessa não-presença, o filme não investiga uma crise matrimonial, mas joga luz sobre ela, evidenciando-a. No meio desse desgaste, também provocado pela nova gravidez, Paula desfila um desmoronamento sutil nas entrelinhas.

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A simplicidade do gesto, a ausência do agudo e o espaço aberto para a multiplicidade de interpretações diante do quadro geral contribuem para organizar A Felicidade das Coisas em um campo de produção hoje que conta com obras de Marília Rocha, André Novais Oliveira e Allan Ribeiro, entre outros, interessados em flagrantes da banalidade cotidiana, sem arroubos (melo)dramáticos, para esconder contextos de desestruturação emocional para justificar seus gatilhos recônditos. São títulos que compõem quadros minimalistas de compreensão social, geralmente associados ao “nada”, quando na verdade estão representando sintomas pulsantes de vida e conflito, por baixo de suas camadas.

A Felicidade das Coisas
Cortesia Mostra SP Cortesia Mostra SP

Dentro desse jogo de tentativas de alcançar o mais cru e o mais verdadeiro e palpável entre as relações, os esforços de Patricia Saravy e Magali Biff são primordiais. A primeira exaspera as ansiedades de uma mãe de família a mercê da solidão momentânea, sua voz sem alcançar a projeção possível para conseguir reverter o quadro em que se encontra, de impasses; a segunda é o exato oposto, aberta ao novo e a efusividade, sem compromissos a longo prazo, uma fatia de leveza dentro da possibilidade de caos no horizonte. Essas atrizes conseguem aglutinar as participações das pequenas revelações e garantir um quadro familiar amplamente crível, em seus micro jogos íntimos.

Construído como uma espécie de observação acerca da ação de um vulcão adormecido sem garantias de novas erupções, o longa também encanta pela forma como monta esse estado de tensão em torno do mundano. Nossa percepção tátil em relação a cartilha cinematográfica pede o conflito aberto e óbvio, mas essa abordagem ultra humanista dessa parcela do nosso cinema reverbera outros matizes de acerto de contas, que podem ou não passar pelo explícito. É dessa reconfiguração do que realmente importa em se tratando de vigências discursivas e imagéticas que obras como a de Fujinaga se constituem, tratando suas proposições a partir da ausência de exposição gratuita; a narrativa existe, está lá, e o espectador que corra atrás de seus signos para a beleza do ordinário.

Um grande momento
Mãe e filho rodam

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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