Crítica | Streaming

A Filha do Rei

Correria sem fim

(The King's Daughter, AUS, 2022)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Sean McNamara
  • Roteiro: Ronald Bass, Barry Berman, Laura Harrington, James Schamus
  • Elenco: Pierce Brosnan, William Hurt, Benjamin Walker, Kaya Scodelario, Bingbing Fan, Ben Lloyd-Hughes, Paul Ireland
  • Duração: 90 minutos

A Filha do Rei, estreia do streaming Telecine Play e que chega aos cinemas americanos semana que vem, é um daqueles casos onde existiam mais alvos para acertar do que flechas para disparar; na dúvida, tentaram acertar o máximo possível, mesmo que necessariamente muitas das coisas parecessem desconectadas no olhar final. Pretende ser uma fábula moderna, pretende ser um conto de fadas infanto-juvenil, pretende ser uma aventura para jovens rapazes e também um romance que agrade ao público de adolescentes… ao fim, poucos resultados terão sido positivos, mas o próprio ritmo da produção antevê um produto de fácil deglutição e posterior esquecimento. Então, seja feita a vontade.

O diretor Sean McNamara é literalmente um profissional da indústria com mais de 30 anos de experiência em todas as áreas possíveis; aqui, ele também produziu e fez uma ponta no elenco. Na função principal, não existe o esmero que se esperaria de um projeto sob o qual deveria ter existido mais empenho em seu acabamento estético. O que era de função visual funciona, ainda que com alguma modéstia, mas têm uma nota lúdica em sua execução que ajuda o filme a criar até uma certa beleza. Já o que era da competência da direção e da montagem, não há capricho – o máximo entregue é a agilidade no tratamento da condução, que no entanto resulta em uma produção no mínimo desconjuntada.

A Filha do Rei
Gravitas Ventures

A impressão em diversos momentos é de estarmos vendo uma versão condensada da versão original, produzida com um interesse de ter um maior número de sessões cinematográficas por dia nas salas. Para isso, perde o valor artístico do todo, que não consegue aprofundar qualquer relação, não consegue promover qualquer lastro mínimo de empatia por qualquer reunião entre dois personagens. Tudo é contado a toque de caixa, com uma agilidade que soa sempre como genérica, porque definitivamente não é feito um trabalho de construção desse ritmo, que mirou o ágil e acabou acertando apenas no corrido mesmo, sem qualquer ganho estrutural.

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O resultado é um filme que passa voando na frente dos nossos olhos, e acaba por não deixar nenhuma marca permanente no espectador. Ao recusar o dito “cinema de fluxo” em nome de um resultado mais imediato, o público médio acaba por receber longas quase incompreensíveis em sua tentativa de contar a maior quantidade de enredo possível num espaço de tempo impossível. São afetados todos os aspectos da produção nesse contexto, da trilha sonora que não consegue criar a atmosfera pretendida, ao trabalho do elenco, que não consegue criar estofo interpretativo diante de uma quantidade absurda de picotes narrativos.

A Filha do Rei
Gravitas Ventures

E nem era o caso de que faltava talento ao grupo de atores reunido, a começar pela protagonista Kaya Scodelario (de Predadores Assassinos), um poço de carisma e que tenta salvar a sua parte nessa salada, e Ben-Lloyd Hughes (de Divergente), que tem um bom papel de vilão para defender e parece não ter tempo de cena para tal. Um ator, no entanto, paira soberano quase sobre o todo: William Hurt, sabe-se lá como, mostra porque ele é quem é. De demonstrações notáveis do imenso talento que sempre teve, Hurt tem um papel pequeno mas muito representativo dentro do projeto, e – sem motivo qualquer, porque o projeto não pedia esse empenho – faz o que alguém da sua estatura faz, ou seja, destrói.

Com um figurino exuberante que tira qualquer pretensão realista da produção criada pela genial Lizzy Gardiner, A Filha do Rei não será lembrado por eles, nem pela sereia em cena que até tem alguma qualidade de concepção visual, nem pelo casal protagonista que não consegue vender sua história de amor no meio do atropelo generalizado. Se tem algo que ficará na cabeça ao fim da sessão é de como William Hurt é um ator sem igual, e como ele salva com sua presença, sua entrega e seu talento absolutamente todas as cenas onde está – e joga ainda mais na cara do espectador a verdade sobre o filme, quando ele não está.

Um grande momento
Todos com William Hurt

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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