Crítica | Festival

A Fratura

O que resta dos mundos em colisão

(La fracture, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Catherine Corsini
  • Roteiro: Catherine Corsini, Agnès Feuvre, Laurette Polmanss
  • Elenco: Valeria Bruni Tedeschi, Marina Foïs, Pio Marmaï, Aïssatou Diallo Sagna, Jean-Louis Coulloc'h, Camille Sansterre, Marin Laurens, Caroline Estremo, Ferdinand Perez
  • Duração: 98 minutos

O caos interior de onde nasce A Fratura (título que simboliza as muitas quebras que o filme metaforiza e reverbera) explode em conjuntura política e acaba por traçar muitas ideias congruentes, em narrativa de excessos para explicitar esse caos exterior que justifica a França partida de hoje, apartada pelo radicalismo da extrema direita, pelos preconceitos de inúmeras ordens, pela incomunicabilidade diante de um mundo em convulsão. Não há um lado para se posicionar, mas muitos, nem todos contraditórios entre si, mas com suas vozes sendo abafadas continuamente pela histeria, pelo grito constante, pela violência à espreita e que irrompe a qualquer momento.

Catherine Corsini não é uma cineasta que provoque excitação, a princípio. Filmes como Partir, Um Amor Impossível e A Bela Estação passaram por telas sem causar maiores investimentos analíticos, mas sua nova produção parece jogar numa raia de menor segurança, por isso a evolução clara e a empolgação no último Festival de Cannes, de onde saiu com uma curiosa Queer Palm. Apesar da galhardia, A Fratura não está interessado em uma plataforma libertária que comumente vemos na filmografia LGBTQIA+, pois suas personagens já estão em momento de menor fulgor afetivo, e essa é uma mola propulsora do roteiro.

A Fratura
Cortesia MixBrasil

Na verdade essa é uma das chaves de entrada da produção, que é positivamente normatizada até quase perder qualquer ideologia; talvez até resida nessa intenção seu acerto observacional, um raro momento outonal em uma relação lésbica retratado no cinema. Em cena, Valeria Bruni Tedeschi e Marina Foïs brilham em momentos e verdades opostas, dois compêndios de dores e amores conjuntos que assistem ao próprio desgaste, a um ponto da cicatriz. Enquanto a primeira se fere nessa descida ao inferno da ruptura, a segunda passa a acompanhar os fantasmas que nascem do fim, residentes em um hospital em dia de crise.

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Paralelo a sua dor, uma França se despedaça em manifestações políticas que exibem seu reflexo em uma emergência digna de uma telessérie americana. Quem já viu qualquer episódio de Plantão Médico, Grey’s Anatomy e afins, identifica a mecânica em torno daquela leitura do horror. Cabe em cena uma ideia de contrapor realidades sociais opostas e fazê-las se encarar, para em seguida empatizar uns com os outros e terminarem como reféns das mesmas prisões. O personagem de Pio Marmaï é a porta de entrada para suas questões políticas mais frontais, e o personagem cria o embate em todas as situações onde se embrenha. Ele é o povo que corre em paralelo a burguesia que denuncia, que fogem intocadas, enquanto a sua pele é constantemente marcada.

A Fratura
Cortesia MixBrasil

O que desequilibra a matemática que Corsini tenta elaborar são justamente seus excessos, não a pólvora que vemos correr por toda a duração, mas sua quantidade infindável de personagens, situações e entreveros que são produzidos naqueles corredores de hospital. Ainda que seus perfis sejam muito bem delineados em cada quadro, da enfermeira que recebe a visita familiar ao desequilíbrio de um paciente que está prestes a ser deflagrado, passando pelo filho de Julie perdido no meio das manifestações – onde também nessa passagem fica clara a rede invisível que envolve os abastados – o filme tenta criar uma teia maior do que o necessário para exemplificar seu painel.

O que reorganiza os pontos em A Fratura é o encontro fatalista entre dois mundos que parecem antagonizar em suas espinhas dorsais particulares. Raf não quer perder Julie e sua dedicação decorre dessa intenção, incluindo o acidente que a leva ao centro nervoso do filme; Yann deseja encontrar o amigo perdido no meio da manifestação onde se feriu gravemente, o que pode ainda significar sua perda de emprego. Essa quebra de mundos, que se chocam timidamente, reconhecem o outro mas seguem para desfechos ainda mais contrastantes, dá o tom da denúncia pretendida e alcançada por Corsini, que reflete céu e inferno para dizer que tudo permanecerá igual, em cima e em baixo.

Um grande momento
Kim e Adrien

[29º Festival MixBrasil]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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