Crítica | Streaming

A Gestora

O diabo veste sangue

(La Jefa, ESP, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense, Drama
  • Direção: Fran Torres
  • Roteiro: Laura Sarmiento
  • Elenco: Aitana Sanchez-Gijon, Cumelen Sanz, Alex Pastrana, Vanesa Rasero, Pedro Casablanc, Maria Fernandez Prat, Rocío Setjo
  • Duração: 110 minutos

É meio impossível assistir a primeira meia hora de A Gestora, estreia de hoje da Netflix, e não pensar em uma espécie de O Diabo Veste Prada do mundo bizarro. Tá tudo lá: a jovem ambiciosa que sonha trabalhar com uma arrojada e exigente profissional da moda, e acaba se envolvendo muito mais do que deveria com o universo onde está inserida. Sem a parte cômica, a personagem jovem que abdica do namorado para fazer uma infinidade de horas extra continua bem representada pelo filme. E a nova versão de Miranda Priestley pode até parecer inofensiva no início da produção, mas não podemos nos enganar: ninguém aqui é puro, anjo ou demônio. Mais uma vez, a rivalidade feminina é colocada na berlinda, e alimentada.

Essa é a estreia em longas como diretor do ator Fran Torres, espanhol aqui realiza um tipo de suspense que queima em fogo brando. Na verdade, nem há elementos de suspense antes da segunda metade do filme, quando a situação mostrada começa a se deteriorar, e o filme avança por esse gênero. Até então, tínhamos um drama de cozimento brando, que não demonstrava nenhuma pretensão com a velocidade. O que o roteiro da jovem autora de TV Laura Sarmiento enquadra é a leitura de duas personagens em tudo diferenciadas, e que se encontram para dividir um sonho cada vez mais absurdo. Socialmente apartadas, Beatriz e Sofia não se conectam em quase nada, somente uma gravidez indesejada parece colocá-las em situação diferente da de chefe e funcionária. 

A Gestora
Feelgood Media

Esse cuidado na confecção de suas personagens não é uniforme, todo o tempo e entre ambas igualmente. As duas figuras, porém, igualmente escondem detalhes de suas personalidades que o filme não tenta decifrar com rapidez; são questões que virão à tona em seu desenvolvimento futuro, mas as pistas para ambas são dadas. Sofia é uma figura tridimensional para lados desconhecidos, mas as peças do quebra-cabeça que são dadas vagarosamente para ela fazem sentido, para Beatriz não. Os desdobramentos envolvendo a funcionária são críveis e montam um quadro maior muito complexo; já a chefe, parece esconder uma faceta meio difícil de compreender, principalmente levando em conta sua posição social. 

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Talvez o filme queira que não apenas o gênero feminino esteja em processo constante de rivalidade, mas também as distintas classes sociais que ambas representem. Pelo caminho, o filme também pode declarar que o desespero e o medo tornam os seres equânimes. Não sei se tais características permitiriam que A Gestora soasse menos datado em sua visão de mundo e no lugar onde se posiciona, tanto os gêneros quanto as classes. O cuidado com que o roteiro desvela as suas protagonistas, dando a elas oportunidades de devassar seus desejos, não é o suficiente para que essa linha fina de entendimento tire da produção seu cheiro de mofo, e seus clichês escondidos por baixo de uma pilha de seriedade. 

A Gestora
Feelgood Media

Conseguimos observar alguma arrogância em A Gestora, na forma como o filme se encara dentro do mercado ou mesmo na plataforma Netflix. Por baixo do verniz utilizado para emoldurar suas intenções, acabamos por chegar no thriller mais banal e na transformação de suas personagens em criaturas cada vez mais disformes em suas doações. Na reta final, o filme se assume como um típico Supercine de sábado à noite, sem medo de provocar tensão e risos na mesma medida. Definitivamente não se trata de uma ideia ruim, a que dá a seu título um certo charme diante de boa parte da empreitada. Mas a certeza de se colocar como uma obra maior do que é, afunda o lugar onde obviamente queria se alcançar. Um filme banal, que não consegue manter seu disfarce de “obra elevada” por muito tempo; se você se permitir divertir, talvez até consiga aqui. 

Um grande momento

A primeira cena

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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2 Comentários
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Brena
Brena
15/11/2022 22:19

Nao gostei do final…. Beatriz é morta pela outra…. Me polpe… Ela foi vitima assim como a outra
….

Tatiana
Tatiana
13/09/2022 11:04

No início do filme eu achava que Beatriz era lésbica, não escrevi bem o personagem.

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