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A Guerra do Amanhã

Uma amanhã arrasado para não pensar no terrível hoje

(The Tomorrow War, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Chris McKay
  • Roteiro: Zach Dean
  • Elenco: Chris Pratt, Yvonne Strahovski, J.K. Simmons, Betty Gilpin, Sam Richardson, Jasmine Mathews, Edwin Hodge, Ryan Kiera Armstrong, Keith Powers, Mary Lynn Rajskub, Mike Mitchell, Jared Shaw, Alexis Louder, Rose Bianco
  • Duração: 140 minutos

Porque às vezes tudo o que a gente precisa é sentar, mergulhar em um filme e não pensar em nada. A Guerra do Amanhã, nova produção da Amazon Studios que estreia agora no Prime Video é daquele tipo de filme que serve exatamente a esse propósito. Ficção científica de paradoxo temporal, comandada por um professor — com passado de líder de esquadrão no exército — que caiu sem paraquedas no meio da ação, com muitos tiros, correrias e monstros, tudo o que o filme apresenta é um convite para a desconexão da realidade.

Dirigido por Chris McKay, que sai direto dos bonequinhos amarelinhos nos dois Lego Batman, e com roteiro de Zach Dean, de A Fuga, o longa investe naquilo que se tornou básico no cinema de ação: drama familiar, resquícios de guerra e luta pelo futuro da humanidade. Personagens, formações, eventos e abordagem seguem o fluxo padrão, e, principalmente nas sequências de maior adrenalina, busca-se uma aura grandiosa e impressionante. O que diferencia A Guerra do Amanhã dos seus pares é a aposta na impossibilidade absoluta — já que todos esses filmes já têm um quê de impossível de partida.

A Guerra do Amanhã
Divulgação / Amazon Prime Video

Aqui, o longa fala de ir para o futuro para que o futuro seja evitado. Mais do que falar, joga o espectador naquele lugar, com um grupo de desconhecidos, muitos gritos, corpos, ruídos e efeitos visuais. Ninguém sabe onde está, até que se saia dali e volte para ver viajantes do tempo que surgem numa final da Copa do Mundo do Qatar, no meio do Natal, e anunciam que precisam de ajuda das pessoas do passado, ou do presente, dependendo do referencial. O que pega o mundo de surpresa dentro do filme, já chega fazendo graça pela inadequação dos detalhes, pelo menos até antes da pandemia Covid-19 fazer com que nenhum evento tivesse uma data específica. 

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Quem une os tempos e as realidades é Dan Forester, o personagem de Chris Pratt (Os Guardiões da Galáxia). O presente é o lugar propício para o background do personagem, seus dramas pessoais e questões familiares, e o futuro é lugar onde está a ameaça, a ciência acontece e as perseguições e bombas se concretizam. Daquele lado, tudo é morno e pouco envolvente, já o lado da ação flui melhor, com tensão, adrenalina e ansiedade. Muitos clichês estarão no meio desse caminho. As escapadelas para o melodrama às vezes funcionam, principalmente nos encontros do futuro, quando o filme assume o brega como estilo, ou nas conclusões batidas, onde a ação dá o tom.

A Guerra do Amanhã
Divulgação / Amazon Prime Video

O roteiro até que se justifica bem em sua megalomania, e segue tranquilo nos dois caminhos, mas não consegue fugir de muitas facilidades, com alunos fissurados em vulcões, cochichos na sala de convocação, apetrechos salvadores e até aquelas teorias sem nenhum cabimento que surgem para tentar criar alguma emoção. Diferente do habitual carisma que traz aos personagens, Pratt não consegue se encontrar aqui e, independentemente de em que época esteja, segue no automático. Para compensar, Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale) traz interesse com sua cientista general, e até consegue uma resposta discreta do parceiro em e uma outra cena; Sam Richardson (Bela Vingança) provoca algumas risadas; e J.K. Simmons (Whiplash) se diverte como o pai durão.

Obviamente, o grande propósito de A Guerra do Amanhã nunca foi gerar discussões filosóficas ou humanitárias, aliás, todas as vezes que tenta ser um pouco mais pessoal ou reflexivo, o filme se enrola todo. Porém, sempre têm aqueles que vão se desgrudar de Dan e seu desespero ilógico para voltar para o futuro ou de Dan acordando todo mundo e adorar explorar a questão belicosa por trás dessa viagem no tempo, o sair de casa para lutar uma guerra que ainda não começou, com um inimigo que ainda não existe. Haveria muito o que se pensar aí. Mas o objetivo do filme é o contrário, e a missão de desligar o cérebro e mergulhar numa história por 2 h 20 é cumprida com sucesso.

Um grande momento
Descendo as escadas

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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