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A Matriarca

Ideia desperdiçada

(Matriarch, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense, Terror
  • Direção: Ben Steiner
  • Roteiro: Ben Steiner
  • Elenco: Jemima Rooper, Kate Dickie, Sarah Paul, Franc Ashman, Simon Meacock, Nick Haverson, Mandy Aldridge, Andrew Akins, John Baker
  • Duração: 82 minutos

São tantas as inspirações e ideias emocionais para esse A Matriarca, estreia do Star+, que a base do filme acaba por se comprometer em absoluto. Não que não tenha algo de interessante acontecendo, talvez esteja acontecendo é coisa demais para duração de menos. Ou mesmo uma concentração de elementos para algo que, no fundo, é bem simples de confeccionar: uma história de dominação materna, e de tentativa tardia de libertação de traumas familiares iniciados na infância mais longínqua. Um filme quase que absolutamente feminino – ao menos entre as personagens principais, e relevantes – dirigido por um homem, o que sempre pode render margem a distorções, mas que aqui nem são esses os motivos do perigo principal. 

Essa é a estreia na direção de longas de Ben Steiner, aqui também como roteirista. Por trás das questões do gênero-fantástico, que são a mola propulsora da produção, existem as discussões sobre o feminino e a hereditariedade, principalmente no que concerne às mulheres. A Matriarca, já partindo do título, é uma ideia para o que a sociedade legou como sendo aquela antiquada rivalidade feminina, que impediu a sororidade de enraizar-se. O filme, dirigido por um homem, poderia ser acusado de continuar propagando esse debate, mas as questões por trás do filme são ainda mais complexas que isso. Existe sim uma periculosidade que o filme banca para esse lado, mas o filme também evolui essa ideia para algo paralelo a isso. 

Os temas estão intrinsecamente ligados, o horror e a herança do feminino, mas A Matriarca não está satisfeito em apenas lidar com esses dois registros, e ainda abre um estudo de personagem, no caso, sua protagonista, Laura. O problema para essa ideia é que Laura não consegue angariar empatia para si, por mais que saibamos que por trás daquela mulher, com certeza tem algo de errado. Grosseira, auto destrutiva, mal agradecida, Laura não carrega muitas boas características em si, e breve saberemos que isso é proveniente de uma criação desastrosa, mas é tarde para compreendê-la. O filme busca que a personagem tenha uma redenção, mas se o espectador não comprar o interesse por essa mulher, o que resta ao filme?

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Ao voltar à sua cidade natal, fica clara a sugestão que o filme sugere para o tempo corrido naquele lugar; creio que nem exista o interesse em provocar surpresa com a solução do plot, tendo a ciência do quão óbvias são as inserções. Tirando essa preocupação da frente, o filme tenta se valer da revelação do fantástico e das relações humanas estabelecidas ali. Como a duração de A Matriarca é curta e o filme precisaria de um arcabouço ainda maior para estabelecer aquelas situações, tanto humanas quanto inumanas, a produção corre o risco de naufragar muito mais rápido do que imaginamos, levando em consideração que pouco é aprofundado. A reta final da produção, por exemplo, é extremamente apressada, sem conseguir estabelecer um peso na sua narrativa. 

Aliado a toda essa ausência de surpresa e correria narrativa desenfreada, o filme ainda conta com a supressão de suas características de gênero, resumindo o terror a um bloco muito pequeno, quase ínfimo. Como o drama das personagens é confuso demais para ser resolvido em uma gritaria na frente de uma criatura, A Matriarca se parece com um projeto que tinha tudo para dar certo e não consegue entregar. Falta tempo hábil para construção da tensão, dos dramas humanos, para solucionar todas as suas questões, para definir a sexualidade da personagem sem parecer algo frívolo. Ou seja, ou o filme diminuía drasticamente a quantidade de conflitos, ou o filme seria agraciado com mais tempo de desenvolvimento. Do jeito que ficou, faltou. 

E não foi por falta de ideia, ou por falta de realização, ou por falta de talento envolvido. Kate Dickie, por exemplo, é uma grande atriz que já brilhou em Marcas da Vida e O Homem do Norte, e o filme tem belas cenas à sua disposição, como a da overdose de Laura. Mas o que nos leva também às dúvidas: a autodestruição da personagem não é bem elaborada, parecendo tão vazio quanto o resto do filme. Logo, tudo que ele eventualmente tem de positivo, não serve para muita coisa também, já que nada é bem desenvolvido. Fica na base da esperança de que tivesse sido realizado, na totalidade, com mais brilho do que em pontos isolados. 

Um grande momento

Assistindo a mãe no altar

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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