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Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades

O cúmulo da egotrip

(Bardo: Falsa Crónica de unas Cuentas Verdades, MEX, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Alejandro González Iñarritu
  • Roteiro: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone
  • Elenco: Daniel Gimenez Cacho, Griselda Siciliani, Ximena Lamadrid, Íker Sanchez Solano, Francisco Rubio, Andrés Almeida, Ivan Massagué, Luis Couturier, Jay O. Sanders
  • Duração: 160 minutos

São mais de 20 anos encarando a auto indulgência de Alejandro González Iñarritu, um cineasta que já recebeu bem mais do que poderia imaginar na carreira. Vez por outra (mas cada vez mais raro), um bom filme surge de sua assinatura. Mas tem cada vez menos Birdman na lista, e cada vez mais Biutiful. Sua nova produção é Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades, e todos os andares possíveis para a condescendência foram descidos. A metralhadora giratória do cineasta está apontada, e sua profusão de ressentimento em relação ao mundo é muito palpável, mas essa metralhadora aparece sem qualquer munição e resta na tela um desfile de imagens bonitas que, ou não significam nada, ou significam tudo que será didaticamente explicado. Depois de cortado e passar das 3 horas de duração para as 2 horas e 40 minutos, nos resta lamentar por não ter sido ainda (bem) mais cortado.

Em tese, são todos atacados, inclusive há ataques a si mesmo. Estados Unidos, o seu próprio México, críticos, artistas egocêntricos, colonizadores e colonizados, Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades é um arsenal que não demora a falhar ao tentar parecer analista do mundo. O principal problema é o fato de que nada em tela, nenhum ataque feito, por mais incisivo que seja (o que acontece muito pouco), é maior do que as intenções reais de Iñarritu, que é brilhar. Ele, o cineasta mais importante de sua geração, vossa excelência em mise-en-scene, o gênio de nosso tempo – tudo isso de acordo consigo mesmo, lógico. A cada ataque de sua vazia estrutura crítica, o que fica evidenciado é seu imenso amor próprio, que não tem fim, limites ou parâmetros. 

Bardo, Falsa Crônicas de umas Quantas Verdades
Netflix/Cortesia da Mostra de SP

Existe um momento onde o protagonista (que é, ora veja, um alter ego de Iñarritu) e seu amigo, jornalista e crítico, se encontram depois de Silverio sacanear esse tal amigo. Começa então um espetáculo de metalinguagem, com Luis criticando o filme novo do amigo, que nada mais é do que o próprio Bardo, suas cenas e seu início. Não precisa ser muito inteligente para ver Iñarritu matutando: “bem, todo mundo vai falar mal de minha presunção, então eu mesmo já vou atacar a obra, com humor e sarcasmo, que aí já me livro desse problema”. Só que esse pensamento é tão óbvio que o tiro sai pela culatra e a cena soa pretensiosa e melosa, como uma criança birrenta já declarando não gostar de si mesmo para impedir que a crítica alheia chegue a si. É mais um estratagema de um diretor que não cansa de causar factóides a seu próprio respeito, para que saia sempre por cima, ora como vitorioso, ora como injustiçado e perseguido. 

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A essa altura, um diretor cuja totalidade da carreira foi indicada ou vencedora de Oscars (o próprio, tem QUATRO estatuetas em casa, ganhando por dois anos seguidos), não deveria fazer qualquer esforço para parecer vítima de qualquer coisa. Mas Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades é também um enorme chororô de Iñarritu, que se pinta como um artista diminuído, um sujeito cujo talento incomodou até a própria família, que sofre deprimido pelo tanto de igual sofrimento que sua inteligência lhe legou. Iñarritu deveria, ao invés de pintar um quadro de perseguição inexistente, elaborar mais as narrativas de suas produções. Um trabalho de direção tão ambicioso a ponto de se tornar sufocante em sua plástica, com diálogos e metáforas tão pedestres, acaba por evidenciar as deficiências do todo, um filme histérico que anseia por reflexão e complexidade, que nunca está em cena. 

Em seu lugar, o filme parece desfilar uma extravagância estética sem qualquer razão de ser. Podemos acatar o fato de Iñarritu ter todo o direito de realizar seu 8 ½, e aproveitar que tantos contemporâneos a ele estão entregando materiais autobiográficos (Steven Spielberg, James Gray, Kenneth Branagh, até seu amigo Alfonso Cuarón), mas é difícil defender uma produção esvaziada de propósito que suplante a vaidade. Refém de suas ideias e de uma realização rebuscada que não esconde sua obviedade, Bardo constrange em suas colocações. Seja nas cenas onde um ou outro personagem emudecem em cena – sempre com um motivo específico, mas que só soa como repetitivo – ou quando resolve explicar suas cenas e mastiga cada detalhe. Iñarritu, além de tudo, ainda tem um elemento narrativo traumático que é ridicularizado a cada nova abordagem pelo filme, culminando com um momento risível onde um bebê é tratado como uma tartaruga marinha. 

Bardo, Falsa Crônicas de umas Quantas Verdades
Netflix/Cortesia da Mostra de SP

Para não tacar apenas pedras na direção do filme, existe uma cena em Bardo que remete a uma ideia que poderia ser desenvolvida com categoria. Silverio e seu filho estão no café da manhã e uma discussão que começa de maneira prosaica vai ganhando contornos dramáticos insolúveis, de parte a parte. É um momento que desenha muitas das qualidades que poderiam ter sido empregadas no filme, que abre mão desse momento e não retoma o que deve ser o assunto mais independente do filme. O protagonista discute em espanhol e seu filho em inglês, em uma demonstração de afastamento não apenas entre pai e filho, mas sim entre duas culturas, entre duas gerações e entre duas nações, à mercê de um discurso explosivo. Infelizmente, a qualidade e o carrossel de situações que poderia acontecer a partir daí não se realiza, e o filme (até por essa cena) demonstra como é discrepante o talento presente nessa passagem e que não se repete na duração quase total.

Desequilibrado e acidentado, longuíssimo despropositadamente e pedante tantas vezes, Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades é Iñarritu em ponto muito baixo, com o narcisismo acelerado mais que nunca, e tendo a certeza de que sua obra errática (sendo educado) é uma missão quase celestial. A única cara livrada do todo é a de Darius Khondji, o fotógrafo indicado ao Oscar por Evita, além de Amor e Seven, que consegue compor uma luz espetacular, ainda que não façamos ideia da necessidade de tal arrebatamento a cada plano. Essa é uma dúvida que perpassa toda a produção: o que passa na cabeça de alguém para conceber tamanha egotrip existencialista rasa, muitas vezes ridícula, para montar uma epopeia barroca que só gira em torno do próprio umbigo. Por trás de tanta pretensão pseudo-artística, reside uma vontade incessante de afagar o próprio ego. 

Um grande momento

‘Let’s Dance’

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Nicolas
Nicolas
30/11/2022 09:21

Pareces não ter entendido nada. É um filme belíssimo cheio de referências á história do cinema e com muito conteúdo existencialista. Sensível e artisticamente impecável. Que pena ler essa tua crítica.

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