Crítica | Streaming

A Mulher na Janela

Uma mulher séria demais

(The Woman in the Window, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Joe Wright
  • Roteiro: Tracy Letts
  • Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Julianne Moore, Jennifer Jason Leigh, Wyatt Russell, Brian Tyree Henry, Jeanine Serralles, Anthony Mackie, Mariah Bozeman
  • Duração: 100 minutos

Há pelo menos dois anos A Mulher na Janela está pronto. No meio das confusões envolvendo a compra do Twentieth Century Studios pela Disney, o filme ficou jogado num canto depois de ser refilmado e não-aceito pelos executivos ante o resultado final. Vendido para a Netflix, o filme estreia hoje com status de “grande lançamento do mês”, por conta do pedigree que todos os envolvidos no projeto carregam, e assombrado pelos piores prognósticos. Pois bem, revelado, o monstro tá bem longe de apavorar como aparentava, porém também não se trata de uma produção digna de qualquer um dos nomes nos créditos.

Filhote direto daquele típico thriller-suspense-policial dos anos 1990 (e de vez em quando levemente erótico – ou não tão levemente assim, às vezes), o filme adaptado do romance de A. J. Finn pelo dramaturgo e ator Tracy Letts – em dose dupla aqui – tem um problema crucial: lhe falta bom humor e cara de pau. Claramente um produto pulp, descartável e rasteiro, de consumo indiscriminado e sem contra indicação, o material exigia leveza no trato, um jogo de cintura pra entender que a atmosfera habitual desse tipo de literatura/cinema é o da galhofa, ainda que disfarçada e até eventualmente cercada de alguma classe, embora compreendendo o seu universo como ordinário.

Joe Wright, cujos filmes já foram indicados a todos os tipos de Oscar, de Orgulho e Preconceito até O Destino de uma Nação, talvez fosse um diretor bom demais pra captar o que a história pedia, e não entendeu que rir é o melhor remédio para uma produção como essa; não sacou o que Neil Jordan tirou de letra em Obsessão, uma brincadeira de cinema noir absolutamente fiel ao espírito dessas sessões noventistas. O diretor britânico quis fazer um Janela Indiscreta pra chamar de seu, sem a sofisticação que um gênio imortal como Hitchcock soube capturar para seu jogo de gato e rato entre vizinhos. Acabou por abdicar da tarefa de ser um filme eletrizante pra realizar algo cafona, em determinados takes.

Por não ser empolgante como deveria e nem adensar seu material como gostaria, Wright acaba por produzir planos incompreensíveis muitas vezes, com uma proposta estética muito arrojada, carregando nos vermelhos e nas penumbras que deixam os ambientes quase irreconhecíveis, mas que parecem mais tentar evocar uma aura austera e grandiloquente do que a produção necessitava, ainda que a fotografia de Bruno Delbonnel (cinco vezes indicado ao Oscar) seja exuberante, mas que não serve para construir um resultado afinado ao seu texto. Igualmente bonita é a trilha de Danny Elfman (também cinco vezes indicado ao Oscar), mas, onipresente, acaba por sufocar as ações com sua presença ininterrupta.

A Mulher na Janela

O elenco é um capítulo à parte: Amy Adams, Gary Oldman, Julianne Moore, Jennifer Jason Leigh, aí quem não ganhou boneco dourado, ao menos foi indicado. Juntam-se a eles Brian Tyree Henry, Anthony Mackie, Wyatt Russell e temos um grupo de profissionais de estirpe inquestionável, mas que não tem praticamente nada a apresentar de memorável, parecendo ter sua escalação deslocada… sabe quando contratamos o presidente de uma multinacional para ser ascensorista de um prédio? Pois bem. Todos têm bons momentos em cena, mas se trata de uma super qualificação, já que a obra não apresenta o suficiente para corresponder aos talentos em questão.

Tivesse Wright seguido os exemplos de Paul Verhoeven, Barbet Schroeder ou Curtis Hanson (diretores, respectivamente, de Instinto Selvagem, Mulher Solteira Procura… e A Mão que Balança o Berço), e teria entendido que muito do que fez o sucesso dessas produções se deve ao risco que todos correram não se levando a sério, em muitos momentos – e aí sim, com isso se tornando seriamente excepcionais. A Mulher na Janela acaba se tornando muito inferior ao que poderia ter sido com tanto potencial que tinha nos currículos. Ainda assim, os plots twists — que acontecem exatamente cronometrados dentro do tempo cinematográfico esperado — surgem envolventes.

A Mulher na Janela

Quando pensamos que é um filme sobre uma protagonista agorafóbica, que não consegue sair de casa, ou seja, vive impossibilitada de sair, e essa produção chega aos espectadores em momento de pandemia, o potencial desperdiçado se torna ainda mais evidente. Resta ao público comprar o pacote do jeito que foi entregue, um passatempo deslocado no tempo que provoca emoções baratas e vazias, ainda que hiperinflacionadas. Na opção de sacanear a si mesmo e zoar um gênero antiquado que sempre serviu à diversão, A Mulher na Janela se levou a sério, e esse é o seu maior pecado.

Um grande momento
Anna é encurralada

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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