Crítica | Cinema

Boa Noite

(Boa Noite, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Clarice Saliby
  • Roteiro: Clarice Saliby
  • Duração: 90 minutos

Durante 26 anos, Cid Moreira ocupou a bancada do maior telejornal do País. Locutor de profissão, iniciou a carreira no rádio, passou pela TV Excelsior e chegou à Rede Globo já no Jornal Nacional, onde tornou-se uma das vozes mais conhecidas do Brasil. Diferente de hoje, quando os espaços não são mais ocupados apenas por apresentadores, Cid foi cada vez mais resumindo-se a sua voz. Boa Noite, documentário de Clarice Saliby, tenta encontrar o que há por trás dessa voz, quem é o homem Cid Moreira. 

O compartilhar dos dias com seu documentado é impresso na tela com carinho e respeito. Há um misto de admiração e curiosidade na relação. A diretora dá bastante espaço para que Cid se familiarize com a câmera, estabeleça uma relação de confiança e intimidade com a equipe e com ela. Mas há um limite que não é nunca ultrapassado.  Ele se sente bem, expõe seu cotidiano, sua casa, revisita o passado e brinca, porém, a exposição é sempre limitada.

O universo a que temos acesso nunca parece ultrapassar a barreira que esteve com Cid enquanto ele esteve na bancada. Ali, diante da câmera, ele é o que narra a sua história, mas o faz com o mesmo distanciamento com que sempre narrou tantas e tantas notícias ao longo dos anos. Cid não mergulha em Cid e nem permite que outros o façam. Ele até fala de momentos íntimos, mas aborda todos como se estivesse apresentando eventos distanciados: a morte de sua filha, como recebeu a notícia da morte da mãe.

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Boa Noite (2020)

Porém, Boa Noite tem momentos, breves, em que o homem se mostra e sua opinião aparece. Enquanto apolítico autodeclarado, ele se sente confortável para falar sobre o jornal do qual não tem registros. É muito rápido, sem olhar para a câmera, mas é uma posição. Do mesmo jeito, em um momento trivial ele expõe um sentimento, talvez o que seja mostrado de forma mais óbvia em todo o filme e que, em poucos segundos, é contrariado em cena. É um gesto curioso que explica toda a dinâmica de apresentação daquele outro que o documentário tenta desnudar.

A figura criada é tão cristalizada para os outros e para si própria que não há forma de ser abordada ou descoberta. Cid quer mostrar outras coisas e as brincadeiras com as sugestões de sequências para o filme, como a história da sauna, são demonstrações disso. Entretanto, há algo muito maior que impede a realização de chegar além do marcante Boa Noite eternizado pelo personagem de tempos atrás ou dos quadros do Fantástico e narrações eternizados pela sua voz.

O documentário alcança essa voz, conta a história por trás dela, faz um apanhado de toda a carreira deste homem e consegue fazer um retrato de como ele passa os seus dias, mas não consegue descobrir qual é a essência daquele que está por trás de tudo isso. Tem um quê de nostalgia para muitas gerações, sabe usar dessa força e encontra na impossibilidade de alcançar o seu objetivo o seu principal trunfo. Por método ou por costume, a postura do observado acaba encontrando um outro interesse.

Um grande momento
Excelsior

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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