Crítica | Cinema

Um Divã na Tunísia

Salvos pela leveza

(Un divan à Tunis, FRA, TUN, 2019)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Manele Labidi
  • Roteiro: Manele Labidi
  • Elenco: Golshifteh Farahani, Majd Mastoura, Aïsha Ben Miled, Feryel Chammari, Hichem Yacoubi, Najoua Zouhair, Jamel Sassi, Moncef Ajengui, Zied Mekki, Oussama Kochkar, Mhadheb Rmili, Rim Hamrouni, Yosra Bouzaiene, Atef Ben Chedly, Mourad Meherzi, Neji Hassouna
  • Duração: 88 minutos

Em tempos onde a falta de comunicação define cada vez mais negativamente a divergência nas relações, uma produção centrada em uma mulher que ouve em parte do mundo avessa ao novo, desacostumada a falar e abrir-se para o mundo exterior, Um Divã na Tunísia poderia facilmente captar alegorias da nossa geração, através dessa simples metáfora. Escrito e dirigido pela estreante Manele Labidi, a leveza com que o filme aborda uma trama de contrastes entre a tradição e a modernidade trazida pelo estrangeiro sopra com frescor em um circuito viciado de assuntos pesados tratados com mãos endurecidas, aqui paira singeleza.

Em um ambiente geralmente visto com tons escurecidos e de abordagem séria, dessa vez o humor dá o tom da produção não necessariamente para provocar gargalhadas, mas para gerar uma espécie de cumplicidade com a situação da protagonista, uma tunisiana criada em Paris que retorna ao lar para atender como psicanalista. De acordo com a produção, a psicanálise é vista como algo tão fora da realidade local que sua associação com evolução é compreendida com clareza e o filme se debruça a explorar essa dicotomia já vista no cinema antes, o exilado que trás os ventos de mudança, a princípio rechaçados, e que percebe uma inadequação que se estende a si mesmo.

Um Divã na Tunísia

Apesar do clima geral ser atraente e acolhedor esteticamente, oferecendo uma diversão de fácil comunicação popular, o roteiro reforça estereótipos locais ao tentar criar um abismo entre a cultura egressa do exterior e falta de conhecimento local, quase observando a família de Selma e seus pacientes como selvagens aculturados, com a jovem Olfa sendo uma voz singular de razão, ainda assim que não se importa em se dobrar à costumes ancestrais para alcançar liberdade. Esse abismo criado serve à narrativa com presteza, porém é responsável por alargar a disseminação de clichês antiquados demais para um filme cuja ideia é descortinar um futuro de ideias.

A comunicação nas consultas transita entre a negação das qualificações e a incredulidade diante do desconhecido e a posterior abertura demasiadamente amplificada para um grupo de pessoas de mentalidade ultrapassada, como o filme vende; por onde se olha, é um quadro inadequado. Mesmo a protagonista incorre em estratagemas negativos (“vocês não são selvagens aqui?”) ao negar uma correção muito básica e posteriormente tentar burlar regras repetidas vezes, no que é repreendida tardiamente pela “voz da razão” – e personagem mais sensato em cena – Olfa, vivida pela talentosa Aïsha Ben Miled.

Nessa espiral de erros cometidos que o roteiro esconde debaixo do tapete em determinadas cenas para lembrar da existẽncia delas quando a narrativa precisar, o que sobrevoa Um Divã na Tunísia é a necessidade de comunicação como apaziguadora de conflitos, internos e externos. Em determinado momento da trama, Selma tem um encontro espiritual com Freud e também ela sente a necessidade de abrir-se e confessar suas motivações que o filme negava ao espectador até então. Mais uma vez providencial, essa cena amarra a situação da protagonista a uma ausência sentida por todos os outros personagens igualmente, como se essa volta às origens fosse também a resposta que ela procurava, sem tê-la.

Com suas soluções lançadas a fórceps na direção do espectador (que, menos exigente, pode relaxar e curtir a produção sem tantas ressalvas), o filme ainda ensaia esperadas cenas machistas nunca consertadas e ainda apaziguadas constantemente, como se um erro fosse facilmente apagado por meio acerto. Sua atmosfera sincera e modesta, no entanto, eleva a experiência de assistir Um Divã na Tunísia, que mais uma vez nos coloca diante do talento de Golshifteh Farahani (de Paterson e Procurando Elly), uma atriz sempre sofisticada, aqui em momento de raro frescor.

Um grande momento
Atendendo no carro

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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