Crítica | Streaming

Zana

A maldição de ser mulher

(Zana, KOS, ALB, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Antoneta Kastrati
  • Roteiro: Antoneta Kastrati, Casey Cooper Johnson
  • Elenco: Adriana Matoshi, Astrit Kabashi, Fatmire Sahiti, Mensur Safqiu, Vedat Bajrami, Irena Cahani, Shengyl Ismaili
  • Duração: 97 minutos

Às vezes, muitas vezes, é aterrorizante ser mulher nesse mundo.  E há lugares onde é ainda pior. Zana, primeiro longa de ficção da documentarista Antoneta Kastrati, expõe uma realidade assolada pela guerra e mostra o que é ser mulher e ter um papel determinado pela sociedade. A história é a de Lume, alguém assombrada pelo passado e que tenta fugir do futuro que a impõem. Vivendo com seu marido e sua sogra, em uma comunidade rural do Kosovo, acompanhamos sua peregrinação contrariada pela possibilidade de uma nova gestação.

O filme busca o tempo inteiro o estranhamento, seja nos quadros incômodos e contraditórios — numa confusa mistura do sombrio e do bucólico — da diretora de fotografia Sevdije Kastrati ou no próprio modo como traz o sufocamento para o desenvolvimento da trama, em um roteiro que usa a não-linearidade e o suspense para confundir. A elaboração é bastante emocional, Zana aposta nessa força e é por isso que é um exemplar de terror tão eficiente.

Zana (2019)

O que se vê em tela se reconhece, os medos de Lume são compartilháveis, factíveis; seus traumas; compreensíveis; sua dor, universal, e a cobrança que ela sofre também. Kastrati faz associações cotidianas e banais que fortalecem o poder do horror. A maternidade, grande mote do filme, está em todos os lugares para onde se olhe, na natureza, nas atividades diárias, nas visitas ocasionais, nas saídas esporádicas. É esse o fantasma que circunda a vida da protagonista.

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Pensar em maternidade é pensar em determinação social da mulher, em como existe uma cobrança para que esta seja uma das funções básicas daquelas que nasceram deste gênero, as amaldiçoadas com o XX. O que deveria ser uma escolha, passa a ser automaticamente uma obrigação. E Lume havia escolhido por isso em algum momento, mas agora decidiram que ela não podia mais definir como seria a sua vida. Em Zana é muito evidente que não há respeito nem ao tempo e nem ao espaço da mulher.

Zana (2019)

À discussão, a diretora acrescenta uma rede familiar de opressão, mágoas e submissões, com todo o peso de uma constituição social onde a mulher deve seguir padrões e não pode determinar o seu futuro. Ainda que haja uma certa peculiaridade no casal central, um enfrentamento às normas, uma resistência, certos limites não são sequer cogitados de serem ultrapassados.

Por outro lado, como contraponto fundamental, o filme traz à tona a dor do luto e o peso da guerra (ela inclusive dedica o filme à suas mãe e irmã mortas no conflito). Os pesadelos e visões de Lume são perturbadores não apenas porque ilustram o trauma, mas por trazerem para fora da tela a certeza da memória perdida, da lembrança sem rosto. A negação à imagem, a toda aquela comunidade, com o incêndio após o ataque, e à mãe por alguém da própria família, são cruéis. 

Zana (2019)

Zana assombra por fazer pensar na proporção que as coisas vão tomando e em como as atrocidades são sempre atrocidades independentemente de com o que se compare. É um filme que vai aos pontos que precisa para falar do que é estar naquele corpo, naquele universo. Lume passa por situações no pós-guerra, século 21, que lembram aquilo que se contava do século 15, e outras tantas que estão determinadas em eras ainda mais antigas. Alem disso, acerta por concretizar sentimentos complexos, por dar forma à tristeza, ao medo, à dor e à saudade.

Um grande momento
Com Zana

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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