Crítica | Streaming

O Mistério da Casa Assombrada

Passado funcional

(Das schaurige Haus, AUT, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Daniel Prochaska
  • Roteiro: Marcel Kawentel, Timo Lombeck
  • Elenco: Leon Orlandianyi, Julia Koschitz, Marii Weichsler, Michael Pink, Lars Bitterlich, Benno Rosskopf, Inge Maux, Finn Reiter, Lisa Stern, Christina Cervenka
  • Duração: 100 minutos

É possível observar dois pontos positivos em filmes que deliberadamente assumem a forma das produções de gênero dos anos 1980, a primeira é que, logo de cara, a nostalgia fisga aqueles que se identificavam com elas no passado, e a segunda é que o formato continua funcionando muito bem e agrada o público jovem da mesma maneira que fazia lá atrás. A produção austríaca O Mistério da Casa Assombrada, um dos lançamentos da semana na Netflix, comprova a teoria. Com uma trama bem batida, tem grande parte de sua força nessa dinâmica dos tempos idos.

Após a morte do pai, dois irmãos e sua mãe precisam se mudar para outra cidade, onde alugam uma casa com uma história sinistra. Nada que já não tivesse sido antecipado pelo título do filme e que se confirma assim que o trio chega no local, antes mesmo que ele se apresente todo aos espectadores, dada a nossa familiaridade com a experiência com tema. O roteiro, baseado no romance de Matina Wildner e adaptado por Michel Kawentel e Timo Lombeck, é básico e se ancora em conflitos funcionais, como os dramas familiares de luto, adolescência e mudança; o coming of age, com os valentões da cidade e a descoberta da paixão, e o suspense, com a história daqueles que nunca deixaram a casa.

O Mistério da Casa Assombrada

Os personagens seguem o padrão e têm funções específicas dentro da fórmula já conhecida. Se tudo está disposto em embalagens banais e posicionado para levar onde esperamos, de onde tirar graça para sustentar os 100 minutos de O Mistério da Casa Assombrada? O diretor Daniel Prochaska justamente se aproveita disso, fazendo questão de destacar que ali nada é novo e, entre atualizações de época — sempre necessárias — e adequações regionais, constrói quase uma colagem-homenagem aos filmes do gênero, principalmente os infantojuvenis. Alguns personagens, inclusive, parecem ter sido tomados emprestados de outros filmes.

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A química entre o trio de jovens investigadores paranormais também ajuda muito na conexão com o público. Em sua estreia no cinema, Lars Bitterlich está à vontade e demonstra um ótimo timing com seu divertidíssimo Fritz; já Mari Weichsler, também em seu primeiro papel, transita muito bem entre o deboche e a meiguice. Um pouco mais experiente que os dois, Leon Orlandianyi se equilibra bem com o protagonista, embora seja menos desenvolto. Circundando o trio, vale destacar a participação de Michael Pink como o afetado corretor de imóveis da cidade, uma personagem completamente oitentista.

O Mistério da Casa Assombrada

Além disso, há o charme da história contada. Mansões assombradas são sucesso garantido há séculos e, a bem da verdade, uma casa com fantasmas sempre será para uma boa alegoria para questões familiares não-resolvidas. O problema é quando a relação se confunde e a motivação passa a ser questionada. O luto de Hendrik, causa legítima, pode ser só uma desculpa para justificar o plot, por exemplo. Mas o filme consegue sobreviver à dúvida pela diversão e pela leveza com que a trama é conduzida e tem todas as ferramentas que precisa para deixar o público, principalmente o infantojuvenil, na frente da televisão tentando descobrir o que realmente aconteceu com os irmãos, pelo menos por um tempo.

É uma pena que se atrapalhe no final e atropele algumas passagens importantes para o desfecho, deixando as soluções fáceis demais, e não consiga atualizar tudo o que precisa, ainda incentivando ultrapassadas determinações de gênero, mas O Mistério da Casa Assombrada cumpre o seu papel de entretenimento. No final das contas era isso que estava almejando desde o princípio.

Um grande momento
“Sangue”

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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