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A Mulher Que Fugiu

Cativeiro invisível

(Domangchin yeoja, KOR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Hong Sang-soo
  • Roteiro: Hong Sang-soo
  • Elenco: Kim Min-hee, Song Seon-mi, Eun-mi Lee, Hae-hyo Kwon, Young-hwa Seo
  • Duração: 77 minutos

No mosaico de várias mulheres elaborado por Hong Sang-soo em A Mulher Que Fugiu há uma que não aparece nunca, a mãe da vizinha, aquela que fez o que o filme expressa literalmente. Mas o ato não é único e muito menos exclusivo. Se algo que se pode dizer do cinema do sul-coreano é que nunca há nada de único e exclusivo naquilo que ele trata. Em suas observações da vida e do cotidiano conta histórias que são de uns e de todos, dele e nossas. Não são histórias que se repetem e se conectam, mas que são similarmente vividas por seres diferentes, pois tem em si a vulgaridade do humano. E há situações, camadas, intensidades e repetições, até mesmo dentro de uma própria vida.

Numa fuga diferente da mãe da vizinha, mas ainda assim fuga, o longa acompanha Gam-hee, vivida por Kim Min-hee, em visita a suas amigas durante uma viagem de seu marido. Em cada encontro, ela encara uma nova realidade, compartilha sua experiência, se reconhece mais um pouco e se reconecta consigo mesma. Tudo é muito simples e baseado em diálogos, como em toda a filmografia de Sang-soo, mas aqui vem com um gosto amargo por reconhecer em outros espaços e dinâmicas algo que se perdeu. Ela fala, come, conversa, vê e está com alguém. “Durante cinco anos, desde que nos casamos, nós nunca ficamos separados”, conta. É a primeira vez que está sozinha com outras pessoas.

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Destaque

O fato de justificar isso com a paixão não encontra paralelismo em nenhuma conversa, ora é questionado, ora é exaltado, a depender da cristalização do ideal do amor romântico ou da carência de cada uma. É incômodo acompanhar e esse desassossego é valorizado pelas atuações e por corpos que se retraem. Min-hee incorpora a mulher que foi se fechando dentro de si, se perdendo na opressão e não sabe muito bem como voltar a ser ela mesma. Ela está ali, mas só existe às vezes. A jornada de libertação iniciada ajuda a protagonista a ir se encontrando aos poucos, ainda que resquícios a acompanhem até o final.

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“Meu marido acha que você é uma pessoa boa. É por isso que eu vim. Não há muitas pessoas que ele goste.”

Entre conversas aleatórias sobre arte e hábitos cotidianos, a toxicidade não deixa de ser tema, ainda que nem sempre seja evidente. O vizinho, o galo, o cara que não aceita a casualidade do encontro voltam para Gam-hee como sinais do que ela não consegue ver em sua própria vida. Assim como ela tem a chance de compartilhar realizações e lugares que quer ter para ela. Padrões também estão por toda parte, na dificuldade de receber elogios, no medo de não ser tão habilidosa em certas tarefas, ou na beleza associada à pouca idade.

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Há outras conversas ligadas à relações. São divórcios, paixões por homens que estão quase se separando, peguetes emocionados, casos do passado e casamentos, todas com potencial de encontrar identificação. Sang-soo vai costurando esses sentimentos, internos e externos, e não faz de A Mulher Que Fugiu uma jornada fácil, muito porque, como em tantos outros títulos seus, aquilo que se vê é o que se viveu ou se vive. A perfeição ilusória da vida apaixonada com bons momentos todos os dias é um delírio que mantém muitas pessoas aprisionadas em relações que as oprimem, afastam do mundo e as transformam em apêndices de outras vidas, sem objetivo e sem sentido. Que todas consigam fugir.

Um grande momento
Levando ao galinheiro

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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