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A Noite do Fogo

Cova de vida

(Noche de fuego, MEX, ALE, BRA, QAT, ARG, SUI, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tatiana Huezo
  • Roteiro: Tatiana Huezo
  • Elenco: Ana Cristina Ordóñez González, Marya Membreño, Mayra Batalla, Blanca Itzel Pérez, Camila Gaal, Alejandra Camacho, Giselle Barrera Sánchez, Eileen Yañez, Teresa Sánchez, Gabriela Núñez, David Illescas
  • Duração: 110 minutos

O tráfico criou fissuras sociais complexas no México. Disputando espaço como principal poder do país, determinando governos e políticas, não poupa na violência e nos gestos extremados, de corpos pendurados em viadutos ou pessoas atiradas de aviões, e assombra tanto a população urbana quanto a rural. A Noite do Fogo é um filme que acontece cercado por esse pavor constante. Contando a história das três amigas Ana, Paula e Maria, o longa de Tatiana Huezo se interessa na infância e no amadurecer nesse local, sob essas condições.

Da infância à adolescência, a diretora destaca o universo mágico que as meninas criam para elas, as brincadeiras, jogos e conversas que a transportam para outros lugares e estabelecem um vínculo que está além do que a racionalidade pode explicar, é nisso que acreditam. E não é isso mesmo a amizade? Entre risadas e corridas, repetindo velhas brincadeiras e mantras inventados, a despeito do tamanho que tenham, elas têm a confiança de que sempre estarão ali uma para a outra.

A Noite do Fogo
Cortesia Mostra SP

A ideia de Huezo em A Noite do Fogo é criar esse lugar seguro, essa redoma em um mundo que nada tem a ver com essa verdade. É como ela demonstra a infância no meio do caos. A vida real, além desse universo, é tomada pelo medo constante e pela dureza de uma existência insegura. Ana e sua mãe, Rita, tem uma relação que nunca chega a ser realizar plenamente por estar sempre assombrada pelos sequestros constantes às meninas da pequena vila; os dias são interrompidos pelas passagens dos comboios das caminhonetes, que assustam até mesmo os militares que estão no local; há um silêncio que oprime, em casa, no salão, na escola. 

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Alternando dois mundos tão diversos, as meninas se veem sem um lugar. Têm uma segurança que é ilusória, mas que as faz sobreviver e, ainda que sem uma consciência plena disso, elas são a força para que continuem. Há uma cena muito simples no longa, quando elas têm que cortar os cabelos, e, depois de passar por sua vez, Ana dá as mãos para Paula. É assim que conseguem seguir e, mais tarde, juntas, entender. A diretora dá muita atenção às interações, e tem um elenco infantojuvenil muito afiado (preparado pela controversa Fátima Toledo), com destaque para a protagonista Ana, vivida por Marya Membreño na adolescência e Ana Cristina Ordóñez González na infância.

A Noite do Fogo
Cortesia Mostra SP

A Noite do Fogo consegue ser muito delicado e ao mesmo tempo incisivo em suas aproximações e afastamentos, e é potente no jeito que aborda as maneiras de amar, nem sempre compreensíveis, desejáveis, mas possíveis. Como os personagens se relacionam com o ambiente também é um dos pontos centrais do filme, já que isso é fundamental no estabelecimento das dinâmicas. Descampados, o lugar onde todos buscam sinal juntos para falar com os ausentes, o salão, as papoulas, a casa abandonada, o espelho d’água, a ruína, a arena de rodeio, a cova no quintal, todos são pequenas peças que Huezo junta nesse testemunho de sobrevida.

Um grande momento
Tentando te ouvir

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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