Crítica | Streaming

A Oitava Noite

Igual, mas diferente

(제8일의 밤, KOR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Kim Tae-Hyung
  • Roteiro: Kim Tae-Hyung
  • Elenco: Lee Sung-min, Park Hae-Joon, Kim Yoo-Jeong, Nam Da-Reum, Kim Dong-yeong, Choi Jin-ho
  • Duração: 115 minutos

O cinema é terra de temas, imagens, sons e estilos que se repetem. Não no radicalismo de “todo filme já foi feito”, mas nesse caminho, o olhar chega diferente para o mesmo ponto, que volta às telas com elementos de outras origens. Moto-contínuo. Vez por outra encontramos algo não-correspondente ao que já conhecemos e vimos pelo caminho, uma experimentação de linguagem, novas abordagens temáticas ou mesmo o próprio tema. Um ponto diverso entre outros iguais que torna aquela obra interessante. A Oitava Noite, que está entre os lançamentos da Netflix, não é exatamente um filme original na forma, nem inesquecível ou de grande qualidade, mas consegue virar a chavinha do interesse pela origem da história que conta.

No universo do horror, a repetição temática é algo muito comum, são vários os títulos que partem de um mesmo dispositivo. Aqui, como em muitos outros, o mal foi banido da Terra em artefatos mágicos por séculos até que numa data pré-anunciada retornasse. Formas e fórmulas depois de tantos prólogos para apresentar elementos sangrentos e apocalípticos, é divertido ver como tudo em A Oitava Noite está absolutamente dentro do padrão, mas num universo tão próprio. O longa dirigido por Kim Tae-Hyung vai da profecia para a expedição, da guarda para o ressurgimento e termina como a batalha, mas parte do sânscrito, de um sutra, e traz o budismo como pano de fundo, tendo monges como protagonistas de sua história.

A Oitava Noite

Obviamente, A Oitava Noite não tem qualquer pretensão de ser um filme inesquecível, mas se esforça para entregar uma produção bem cuidada. São muitos ambientes e uma elaboração significativa com os efeitos especiais e a maquiagem. Tae-Hyung consegue integrar o sobrenatural sem carregar o visual e, quando se excede, o faz de maneira estilosa. É um cuidado que faz a diferença no resultado final.

Muito do que se vê em tela mistura o cinema de horror estadunidense — com trilha marcada, muitas explicações e elementos muito específicos — e o cinema de suspense sul-coreano — com muitas penumbras, o caminhar constante e o silêncio dos personagens. O casamento dá certo e faz com que o roteiro de A Oitava Noite flua bem, dando destaque à busca dos monges e espaço para a trama paralela da polícia em sua investigação, enquanto o mal tenta alcançar o seu objetivo. Se há problemas é no desequilíbrio do envolvimento, que fatalmente acontece entre as partes.

A Oitava Noite

A metáfora de A Oitava Noite faz parte disso. Desde a profecia, onde depressão e raiva são o foco, até um presente permeado pela culpa, as relações que se estabelecem são muito interessantes e as atuações são fundamentais para isto. Em seu caminho tripartite, há um vagar confuso entre os sentimentos, como se eles não pudessem estar separados, os dois primeiros muito presentes na figura do calado personagem de Lee Sung-min que se vê desafiado pela companhia do fofo monge aprendiz de Nam Da-Reum, e, por outro lado, menos envolventes, Park Hae-Joon e Kim Dong-yeong, responsáveis pelo lado mais burocrático e também o mais evidente.

Estruturalmente nada vai ser novidade, nem na primeira e nem na segunda camada. Inclusive, a lenda comprova que não é o cinema, mas a repetição é do homem e de qualquer coisa que ele crie. É divertido encontrar as correlações em um universo diferente daquele que já vimos tantas vezes representado, observar que todos os acontecimentos tem um quê de inusual, e, ao final do caminho, por mais batido e esperado que seja, ver que o tudo pode encontrar um meio de surpreender, nem que seja nos signos.

Um grande momento
Park Jin-soo e sua sombra

Fotos: Netflix

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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