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A Origem do Mundo

Minha mãe nunca

(A Origem do Mundo, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Laurent Lafitte
  • Roteiro: Sébastien Thiery
  • Elenco: Laurent Lafitte, Karin Viard, Vincent Macaigne, Hélène Vincent, Nicole Garcia
  • Duração: 98 minutos

Jean-Louis está vivendo o momento do nada em sua vida. O casamento está estagnado, o trabalho já não faz mais sentido e nem mesmo quando procura algo que o estimule consegue sair do vazio. Um dia ele percebe que não consegue mais sentir seu pulso e seu melhor amigo, o veterinário Michel comprova a suspeita: seu coração parou de bater. Sua esposa, Valérie, contrária à ideia de levá-lo o hospital, arranja uma coach e exotérica que logo determina: a culpa é da mãe. É na impossibilidade que se constrói a comédia do absurdo A Origem do Mundo, disponível na Netflix e estreia na direção do ator Laurent Lafitte (Elle).

Há muita coisa interessante no longa, que desde o começo busca encontrar Molière e a Comédie-Française ainda que falte muito chão para chegar até lá. Bem próximo do teatro, mas sabendo chegar no cinema, o modo como os personagens se apresentam, o desprendimento da realidade sem deixar que ela se distancie muito, as abordagens filosóficas e psicanalíticas e, óbvio, um humor afiado que, se nem sempre faz rir, mas quando faz, é para valer, transformam o filme em uma experiência curiosa, daquelas que prendem o espectador pelo inesperado e pela curiosidade.

Há também identificação, embora não haja nenhuma intenção de que ela seja evidente. Por trás da história aloucada, a relação de mãe e filho é algo que todo mundo conhece de perto, mesmo que com outro nome. Difícil haver algo sobre isso, seja livro, peça, filme ou qualquer outra coisa, e não se perceber um milhão de coisas, das mais insignificantes às mais gigantescas, ao gosto e vivência do freguês. Baseado na peça homônima de Sébastien Thiery, de 2013, com um roteiro escrito pelo próprio, mais do que todos os traumas de uma relação mal resolvida, A Origem do Mundo fala dessa dificuldade em olhar para a figura materna de maneira diferente, de vê-la enquanto mulher ou um ser descolado daquele preconizado pela nossa sociedade, a que ama incondicionalmente, cuida, provém.

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A Origem do Mundo
Trésor Films – Arte

Se a descida de Jean-Louis nesse espiral de percepção forçada se dá bem por um lado, há coisa que chega truncada por ultrapassar alguns limites. A comédia é do absurdo e isso a libera de muita coisa, mas há algumas cenas de violência complexas de acompanhar, ainda que se resolvam em si. E é curioso, porque há muito nessas cenas que demonstram a dificuldade de compreensão da qual o filme fala. O jogo social de santificação da mãe, assim como de apagamento e objetificação, está muito bem desenhado e disfarçado pelo chiste na dinâmica que se estabelece.

Da mais banal à mais esdrúxula cena, Lafitte, que também vive o protagonista, tem a seu lado e sob sua batuta um elenco que entrou em campo para jogar. A dupla Karin Viard (Polissia) e Vincent Macaigne (2 Outonos, 3 Invernos) é impagável e se a primeira surpreende com seu timing cômico, o segundo vem inspiradíssimo como o amigo que de favor inusitado parte para outras questões e traumas. A mãe, a senhora Brigitte, é vivida maravilhosamente por Hélène Vincent e, embora tenha menos tempo de tela, domina suas cenas.

É uma pena que A Origem do Mundo não seja tão ágil como gostaria e nem tão homogêneo. Há muitos momentos em que o texto se perde em rabicho desnecessários e as situações nem sempre se encaixem tão bem. Fazer comédia é difícil, falar de mãe mais ainda, e juntar tudo isso em uma primeira direção é um risco alto que se escolhe correr. Mas, no final das contas, é um filme que diverte, tem momentos realmente muito divertidos e que se encontra bem no absurdo.

Ah, é bom falar que os créditos iniciais do filme são acompanhados com a canção “Cadeau”, de Marie Laforêt, que não foi legendada e tem um diálogo entre uma mãe e um filho no começo. Então, não é o filme que está sem legendas, é só a canção mesmo. E já que estamos falando de créditos, impossível não acompanhar os finais até o último segundo.

Um grande momento
Passeio no palácio

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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