Crítica | CinemaDestaque

A Queda

Adrenalina interrompida

(Fall, EUA, RUN, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense, Aventura
  • Direção: Scott Mann
  • Roteiro: Scott Mann, Jonathan Frank
  • Elenco: Grace Caroline Currey, Virginia Madsen, Jeffrey Dean Morgan, Mason Gooding, Jasper Cole, Darrell Dennis, Julia Pace Mitchell
  • Duração: 105 minutos

Pra quem me conhece em particular sabe que o medo de altura é uma fobia séria que nunca superei, e a essa altura nem acho que irei. Por conta dessa situação em específico, filmes como Risco Total, Limite Vertical e Arranha Céu me fizeram ir indócil aos cinemas, em misto de atração e pavor com o cenário encontrado. Sempre tive a consciência de que minha fobia é conjugado pelo binômio atração + pânico, e isso mais uma vez me leva até a tela grande, na estreia de A Queda. Minhas reações foram o termômetro não apenas do meu envolvimento e análise, dessa vez, mas de uma conjectura subjetiva cuja conexão eu não pude permear por outra régua, que não a instintiva. Eu sabia que, com esse filme específico, por mais que eu usasse as ferramentas de sempre para a crítica, a emoção – ou falta dela – falaria mais alto. 

Nesse sentido, o filme dirigido por Scott Mann (de irrelevâncias como Refém do Jogo) é bem sucedido, ao menos até certo ponto. Talvez por culpa de seu próprio roteiro, escrito em parceria com Jonathan Frank, A Queda não consiga estruturar durante todo o tempo seu ponto de interesse, que é servir aflição e angústia ao espectador. Com uma abertura protocolar onde sabemos exatamente o que vai acontecer, o filme não é uma peça de pirotecnia esvaziada, mas carece da adrenalina que deveria entregar. Porque é isso que esperamos de um filme cuja premissa é a de duas jovens mulheres penduradas em uma das torres livres mais altas dos EUA. Ao invés de entreter, o filme vai pé ante pé se encaminhando a um jogo de narrativa novelesca, com direito a uma reviravolta de envergonhar Manoel Carlos. 

A Queda (2022)
Paris Filmes

Após a abertura-clichê, se segue o encontro de duas amigas ainda em luto, tentando vencê-lo com a estapafúrdia maneira de voltar a encarar um trauma recente – e não em qualquer lugar, mas a 600 metros de altura quase sem proteção. A partir desse momento, A Queda mostra a que veio até aproximadamente sua metade, com injeções de inquietação constantes. Ao contrário da sequência de abertura com efeitos ordinários, todo o resto da produção impressiona pelo realismo gráfico, nos fazendo temer por diversos momentos pela integridade das protagonistas, que provavelmente estavam em segurança no estúdio. A qualidade do que é produzido, no entanto, nos leva à ilusão de ótica produzida pelo cinema em seus melhores momentos, e que nos piores, leva filmes eficientes a embarcar em propósitos outros fora da compreensão. 

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É o caso do que acontece em cena aqui, quando A Queda pisa no freio e passa a tentar nos impressionar com uma subtrama romântica inserida a fórceps na narrativa. É por esses esquemas esdrúxulos que o filme dirigido por Cann acaba por perder a força estética. Força essa muito bem apresentada na metade inicial, quando seu autor, em bela sacada, resolve dar o mesmo espaço para o rosto em pavor de suas protagonistas e aos objetos cênicos em close, justificando ao espectador sua agonia crescente. São parafusos se soltando às escondidas, degraus que rangem e podem até arrebentar, um vento incessante que tremula o corpo das atrizes, a ferrugem corroendo o cenário, prestes a promover o horror. Diante da simplicidade dessas imagens, o diretor dinamiza em discurso o que seu filme está proporcionando na prática. 

A Queda (2022)
Paris Filmes

Sinceramente? Além de ser um arremedo de trama bobíssimo, isso não interessa ao público de A Queda. Não é interessante, não leva a lugar nenhum, e estanca a adrenalina do filme, que ia muito bem até esse momento. Impressionando com sua estética, sem poupar o público de possíveis convulsões ao assistir, o filme abre com essa metade eletrizante, cheia de energia, que catalisa em cena de provocar ataques cardíacos. Aos poucos, o filme cede passagem a artimanhas de roteiro que nem cabiam naquela situação, sendo um entrevero entre as amigas provocado e “encerrado”, sem qualquer respaldo. O filme perde a oportunidade de unir essa primeira parte ao ataques dos abutres, quando a velocidade é retomada – ou apenas parece que está sendo.

Com boa química entre as atrizes Grace Caroline Currey e Virginia Gardner, A Queda é um passatempo descontraído para quem procura escapismo sem compromisso. Não chega a incomodar seus momentos menos inspirados e de marcha lenta. Como não havia compromisso para romper um certo grau de qualidade, o que nos resta é o envolvimento emocional com as sequências mais eletrizantes. E vindo de alguém que sofre de verdade com o medo de altura, a garantia é a de uma sessão marcada pela tensão. Quando as personagens parecem enfim se acostumar com a situação, o filme deixa de promover catarse, mas dificilmente deixará de promover emoção. 

Um grande momento

Escada abaixo

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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