Crítica | Cinema

Abe

Salada gastronômico-religiosa

(Abe, EUA, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Fernando Grostein Andrade
  • Roteiro: Fernando Grostein Andrade, Lameece Issaq, Jacob Kader, Christopher Vogler
  • Elenco: Noah Schnapp, Seu Jorge, Dagmara Dominczyk, Arian Moayed, Mark Margolis, Tom Mardirosian, Salem Murphy, Daniel Oreskes, Gero Camilo, Victor Mendes, Ildi Silva, Devin Henry, Steve Routman, Josh Elliott Pickel, Alexander Hodge
  • Duração: 85 minutos

Filmes que abordam a culinária em sua espinha dorsal geralmente a utilizam para desencadear paixões ou conflitos através da sua feitura, agregando mensagens positivas através de muitos clichês que geralmente descem com alguma graça e fácil entretenimento. É o caso desse Abe, coprodução nacional com os Estados Unidos que utiliza tudo que já vimos em tantos filmes anteriores, aqui acrescidos de conflitos étnico-religiosos cozinhados em molho familiar. Mas se não apresenta nenhuma novidade qualitativa no que iremos ver em matéria de construção narrativa ou imagética, essa produção da Gullane Filmes incomoda porque exatamente não consegue apresentar qualquer novidade de sabor, e ainda mistura demais tudo que coloca à mesa.

Esse é o quarto longa de Fernando Grostein Andrade, que estreou o bonito documentário Coração Vagabundo, que seguia Caetano Veloso pelas ruas de Nova York. É o que ele volta a fazer na condução de seu novo filme, seguir seu protagonista pelos arredores do Brooklyn, um garoto de 12 anos que experimenta uma fascinação pela cozinha enquanto arte. O filme tem ciência do público que pode alcançar através da juventude do personagem-título, e arma suas imagens com incessantes inserções de instagram, whatsapp e efeitos gráficos que podem conquistar essa fatia de mercado, talvez em excesso.

Abe
© Blue Fox Entertainment

Um outro lado de Abe mostra a realidade de uma família religiosamente mista. Os judeus do lado de sua mãe e os muçulmanos da origem de seu pai brigam a qualquer mínima reunião, o que não ajuda o próprio casamento entre seus pais como revela a frágil maturidade do protagonista, que vive fragilizado pelas tais cenas. O jovem Noah Schnapp consegue capturar toda essa confusão emocional e a real empolgação com o surgimento da culinária em sua vida, ou seja, a culpa da falta de fluência das redes que o roteiro arma não é do menino (nem de ninguém do elenco), mas sim do excesso de informações repetidas que o filme encampa, cuja originalidade não é uma opção.

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Andrade cresceu em ambiente judeu e deve ter tido uma infância com reconhecimento mínimo do ambiente que retrata, mas a qualudade da representação também não é um problema. Trabalhando com três montadores, o filme deixa óbvio que se trata de uma equipe por trás da atividade, porque quase não há momento onde sua edição não pareça entulhada de eventos, confusões temporais desnecessárias, algumas cenas decalcadas umas das outras e até erros de continuidade injustificáveis. Por mais que não falte carisma à produção, essas falhas deixam o sabor da receita ligeiramente amargo.

Abe (2019)
© Blue Fox Entertainment

O belo elenco, que inclui um luminoso de Seu Jorge e uma micro participação de Gero Camilo, é realçado por um grande momento do veterano Mark Margolis. Eternizado como o tio Hector Salamanca de Breaking Bad, a presença de Margolis não apenas realça a discussão religiosa do filme ao plano principal e emocional, como adquire empatia sincera a um personagem com um traço de melancolia pela viuvez recente. É seu imenso talento que transforma o clima de diversas cenas e leva às lágrimas o espectador na cena mais especial da produção, após o sumiço de Abe durante uma ruidosa briga familiar – o ator transborda emoção.

O público apreciador de jornadas cinematográficas entre panelas e fogões, e que se deixou levar por modestas contribuições como Sem Reservas, Julie & Julia e Chocolate vai saborear sem restrições essa iguaria repleta de temperos. Ao recorte mais exigente, saltará aos olhos que falta ambiente familiar real na casa de Abe, também estranha a falta de envolvimento de jovens em presença real e percebe que, mais uma vez, menos é mais. Coisas que um bom chef precisa angariar durante a profissão para poder aguçar texturas e paladares, como Andrade pode alcançar.

Um grande momento
“você precisa comer alguma coisa”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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