Crítica | Festival

The Asian Angel

Encaixes improváveis

(アジアの天使, JAP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Yûya Ishii
  • Roteiro: Yûya Ishii
  • Elenco: Choi Hee-Seo, Sôsuke Ikematsu, Kim Min-Jae, Kim Yae-Eun, Joe Odagiri, Tateto Serizawa
  • Duração: 128 minutos

No cinema alguns elementos parecem simples, mas representam muito em determinados filmes, são o que sintetizam a narrativa. Em The Asian Angel este elemento é um personagem, um pequeno e fofíssimo menino chamado Manabu. Silencioso, o pequeno acompanha e observa o cotidiano e a jornada de pessoas quebradas, seres perdidos em suas próprias vidas e que se encontram na barreira, óbvia da língua, sutil nos atos. Ele também é dono de uma dor que não entende e tem vontade de sumir, mas ainda tem a pureza e a inocência que os outros perderam.

A trama se divide em duas histórias que se cruzam: a de Takeshi, um viúvo japonês, o pai de Manabu, que vai à Coreia do Sul encontrar um irmão que dizia estar indo bem nos negócios; e a de Choi, uma cantora que tenta fazer sucesso mais precisa ir com seus irmãos visitar o túmulo de sua mãe. Os protagonistas já chegam ao filme enlutados e suas apresentações ao público são marcadas por desacertos, confusões, peças fora do lugar. É como se nada em suas vidas se encaixasse, mesmo quando algo pareça estar dando certo. Se é que em algum momento isso aconteceu. 

The Asian Angel
© 2021 The Asian Angel Film Partners

É quando The Asian Angel vai se ajeitando enquanto road movie que as coisas começam se acomodar em seu lugar, por mais que as trapalhadas sigam acontecendo e a má-sorte não abandone os personagens, há algo no encontro daquelas pessoas que faz com que um vazio seja preenchido, mesmo com toda a impossibilidade de comunicação — ou talvez por ela. Com mais agilidade e outro ritmo, o filme se torna mais interessante. O diretor e roteirista Yuya Ishii (A Grande Passagem) parece se sentir muito mais livre para criar, brincar com seus personagens e se aprofundar na questão das semelhanças improváveis.

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Ainda que flerte com o sobrenatural, da maneira mais inusitada possível, o longa traz questões muito humanas e consegue representá-las muito bem graficamente. O diretor de fotografia Kim Jongsun, de Alive e True Fiction, trabalha muito bem com os quadros e sabe, com a mesma habilidade, deixar Choi se sentindo pequena sob o céu de uma Seul que a oprime e destacar a alegria de Manabu por conhecer a praia. Indo de uma tomada noturna grandiosa ao banal cotidiano. The Asian Angel ainda tem um elenco que funciona muito bem junto. Muito diferentes entre si, e a diferença cultural é bem marcada pelos países aqui, a conexão que se estabelece traz um interesse adicional ao longa.

The Asian Angel
© 2021 The Asian Angel Film Partners

E tem toda a deliciosa história do anjo que dá nome ao longa e pode ser interpretada de várias maneiras até que se estabelece e arranca boas gargalhadas. Embora Ishii se complique com o prolongamento de algumas sequências no primeiro terço, o que deixa o filme mais arrastado, há muitas passagens que ficam marcadas, inclusive nesta parte, seja pelo humor exagerado ou pela delicadeza da força dos encontros. A chegada de Takeshi na Coreia e recepção pelo sócio picareta do irmão, ou a primeira vez que este encontra a prima de Choi são alguns deles 

The Asian Angel é um daqueles filmes que não indica tudo o que entregará nos primeiro momentos de projeção, mas vai crescendo à medida que avança e ganha ainda mais força depois que os créditos sobem e o tempo passa. Guiados por Manabu, é bom assistir a essa história de um encontro de almas que se fortalecem e se encaixam no inusitado da vida, para se emocionar, se entreter e refletir. 

Um grande momento
Declaração na praia

“The Asian Angel” faz parte da seleção da 20º NYAFF, que acontece de 6 a 22 de agosto de 2021.
O New York Asian Film Festival é vinculado ao Lincoln Center e é o único evento dos Estados Unidos dedicado exclusivamente ao melhor do cinema asiático.

[20th New York Asian Film Festival

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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