Crítica | Cinema

O Esquadrão Suicida

(The Suicide Squad, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: James Gunn
  • Roteiro: James Gunn
  • Elenco: Idris Elba, Margot Robbie, John Cena, Viola Davis, Sylvester Stallone, Daniela Melchior, David Dastmalchian, Steve Agee, Michael Rooker, Joel Kinnaman, Nathan Fillion, Jai Courtney, Flula Borg, Pete Davidson, Mayling Ng, Sean Gunn, Lynna Ashe
  • Duração: 132 minutos

Apesar dos protestos de David Ayer, diretor e roteirista de Esquadrão Suicida (2016), seu filme é lembrado tão e somente como o veículo que alçou a Arlequina de Margot Robbie como uma favorita dos fãs, com direito a filme próprio. Porque o longa sobre o grupo de vilões especializado em executar missões altamente perigosas para o governo dos EUA é um trem desenfreado, um exemplo de como a DC àquela altura se afundava no desespero de não conseguir fazer frente aos sucesso do MCU (Marvel Cinematic Universe). Dentre esses sucessos esteve Guardiões das Galáxias, realizado dois anos antes por James Gunn, trazendo para o cinema um bando de personagens de segundo escalão da casa das ideias, que se tornaram também favoritos dos fãs ao serem trabalhados em profundidade, numa história com coração sobre desajustados intergaláticos que se tornam uma família.

Corta para 2018. Em meio a guerra das eleições presidenciais, apoiadores de Trump devassam tweets antigos de Gunn, que estava fazendo campanha para Bernie Sanders, e conteúdo extremamente pedófilo, homofóbico e misógino — inclusive com apologia ao estupro — choca inclusive os chefões da Disney. O cineasta é demitido e nesse ínterim, procurado pela DC para dirigir um projeto à sua escolha. Sem nada a perder, como ele relatou em entrevista à Rolling Stone naquela ocasião, quando sentia que poderia nunca mais trabalhar por conta do cancelamento nas redes, resolveu fazer a sua versão, sem censura, do Esquadrão Suicida que não seria um remake nem uma continuação. Inclusive, não muito tempo depois, por pressão do fandom, ele é recontratado pela Disney para fazer o terceiro filme dos Guardiões.

O Esquadrão Suicida (2021)
Warner Bros. Pictures / © DC Comics

E eis que o filme que chega aos cinemas nesse começo de agosto é a cara do pai. Sem fugir às controvérsias, Gunn faz do seu O Esquadrão Suicida um veículo para a sua mente doentia, trazendo uma história onde a contagem de mortos é alta, mas a a violência é banalizada para propositalmente gerar um desprendimento por parte do público, afinal, as mortes mais grotescas são dos personagens mais descartáveis — não os que tiveram menos tempo de tela, mas os que não se integraram na composição do grupo de forma a criar um vínculo emocional.

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Não se apegar aos personagens que têm coração é a ordem do dia em O Esquadrão Suicida. O perigo sempre espreita os anti-heróis como em Game of Thrones ou The Walking Dead. A história segue mais ou menos uma premissa padrão: ir até Corto Maltese, uma república das bananas em um lugar qualquer da América do Sul, destruir operação genética feita por nazistas radicados. Para a missão, o grupo é formado a partir do recrutamento que a autoritária Amanda Waller (Viola Davis, de volta) faz na prisão de segurança máxima de Belle Reeve – que também serve como QG da operação.

Jessica Miglio / DC Comics / 2021 © Warner Bros. Entertainment

Mas é só no começo desse primeiro ato que O Esquadrão Suicida 2021 se assemelha ao Esquadrão Suicida 2016. Alguns outros personagens/atores estão de volta como Rick Flag (Joel Kinnaman), Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e claro, Arlequina (Margot Robbie). Will Smith não topou voltar como Pistoleiro por incompatibilidade de agenda, então Gunn chamou Idris Elba para dar vida a um novo personagem, Bloodsport. Some-se a eles figuras como Michael Rooker que está em todos os filmes dos Guardiões, John Cena (Pacificador), David Dalstmachian (Bolinha), Sylvester Stallone (que dubla o Tubarão Rei) e a novata atriz portuguesa Daniela Melchior (a Caça Ratos) e o time está completo, além da participação da Brasileira Alice Braga (de Novos Mutantes) como uma velha conhecida de Flag e líder da milícia que quer derrubar a ditadura militar em Corto Maltese.

Com tantos personagens em cena, Gunn mostra como aprendeu em seu tempo na Marvel a construir os arcos para integrá-los no núcleo narrativo de forma orgânica. Para isso, usa como artifício o sangue frio de Waller, a verdadeira vilã do filme, na separação de quais personagens serão sacrificados de cara para servir como isca e quais ganharam mais um tempo de vida sem ter as cabeças explodidas graças as bombas que tiveram implantadas. Enquanto isso, a trilha sonora pop marcante está lá (com direito inclusive a artistas brasileiros como Marcelo D2, Glória Groove e Céu) integrando o estilo de cada personagem aos seus traumas e contribuições ao grupo. Bloodsport é, a exemplo de o Pistoleiro, uma espécie de liderança da equipe. Ele transforma qualquer coisa em arma e tem no seu traje high tech cheios de truques outro trunfo. Entre Bloodsport e o Pacificador surgem faíscas e as melhores piadas do filme. Completando o trio de machos alfa está Rick Flag, com um visual inclusive bem próximo da versão em quadrinhos, onde usa a camisa amarela e é o totem moral de uma equipe degenerada. Gunn se inspira, logicamente, na fase das HQs do fim dos anos 80, onde o Esquadrão se tornou o grupo de vilões sem super poderes, que realiza missões black ops — sem reconhecimento oficial do governo — para limpar a sujeira para baixo do tapete.

Jessica Miglio / DC Comics / 2021 © Warner Bros. Entertainment

“Suicídio é meio que a nossa especialidade”

Como canta Frank Black, vocalista dos Pixies na canção “Hey”, os membros do Esquadrão Suicida estão acorrentados uns aos outros e vão provavelmente morrer. Essa música é a trilha de uma das cenas mais eletrizantes do filme-que-não-para-um-segundo com o grupo chegando em meio a chuva e a névoa no laboratório conhecido como a prisão de Jotunheim. E é partir do momento em que o Pensador — vivido por Peter Capaldi, um dos intérpretes do Doctor Who — revela os pequenos segredos sujos envolvendo o governo norte-americano e a ilha de Corto Maltese que existe uma girada de chave não só na história como no comportamento dos membros do Esquadrão Suicida.

Arlequina segue a formulação “maníaca e linda”, mas aqui é bem menos objetificada do que no primeiro filme, estando a personagem numa gradação mais dramática, ainda que engraçada, próxima do tom de Aves de Rapina. Ela segue separada do Coringa, buscando evitar novos relacionamentos tóxicos e muito leal aos seus amigos, sejam os velhos ou novos. Como nome de destaque na arte do cartaz, ao lado de Robbie, Elba pôde desenvolver seu hesitante anti-heroi e ainda ter momentos ótimos contracenando com Davis, Cena e Melchior em especial. Cena inclusive agradou tanto Gunn como o alucinado “amante da paz , um Capitão America babaca, que não mede esforços e mata inclusive os companheiros” que o personagem vai ganhar série na HBO Max.

“Apareceu a porra de um kaiju”

O Esquadrão Suicida (2021)
Jessica Miglio / DC Comics / 2021 © Warner Bros. Entertainment

E a escolha do chefão, da grande ameaça que eles enfrentam não poderia ser mais asquerosa e excitante do que Starro, o conquistador estelar, uma estrela do mar gigante com poderes telecinéticos e dos vilões mais bizarros da DC que já derrotou A Liga da Justiça nos quadrinhos. No filme, foi encontrado por astronautas norte-americanos e pesquisado por décadas no laboratório de Corto Maltese até que resolve dominar todas as mentes.

Vai ser necessário então trabalho de equipe para deter a ameaça e conquistar a liberdade, mas, claro que Gunn promove mais algumas baixas no grupo para que o público sinta o baque. John Ostrander — que inclusive aparece no longa atuando como o Dr Fitzgibbons — foi quem humanizou os vilões, maturando e pondo em prática a ideia de o Esquadrão Suicida ser um grupo falho, que criaria uma identificação grande com o público, o que nem é sempre possível com kriptonianos, bilionários taciturnos, amazonas ou deuses subaquáticos. A empatia que Gunn consegue traduzir com sucesso em meio ao banho de sangue e às piadas bem pesadas, mas adequadas à classificação para maiores de 16 anos, reside no fato de que qualquer um deles pode ser facilmente descartado, somada a histórias pessoais com apelo impactante, como a conexão da ex-moradora de rua Caça Ratos com o pai (Taika Watiti) e com os roedores, e o complexo de Édipo de Bolinha, que inclusive rende cenas incríveis onde ele enxerga a monstruosa mãe em todo lugar.

O Esquadrão Suicida (2021)
Jessica Miglio / DC Comics / 2021 © Warner Bros. Entertainment

Além dos rios de dinheiro que deve render no cinema e (mais assinaturas?) daqui a 90 dias no streaming, O Esquadrão Suicida de James Gunn escancara uma porteira que até então estava emperrada na Warner/DC: a possibilidade de se adaptar histórias e personagens dos quadrinhos sem seguir a formulação cafona de Zack Snyder. Buscando um caminho do meio, Gunn se aproxima do estilo que imprimiu em seus filmes na Marvel ao mesmo tempo em que, com maior liberdade e pensando num público mais adulto, colocou em prática a subversão, em mais um exemplar de blockbuster absurdo, mas com uma crítica sutil ao imperialismo americano, com personagens carismáticos, que devem voltar em outras empreitadas audiovisuais do estúdio.

“Não se trata de uma continuação, mas temos alguns personagens repetidos, né? Então não é um reboot, tampouco. Simplesmente chamamos de O Esquadrão Suicida de James Gunn”, assinalou o cineasta em entrevista para o Hollywood Reporter. E se o objetivo dele era fazer a sua versão, nos dizeres de Arlequina, no espírito “viva rápido e morra fazendo palhaçadas” o intento foi atingido. Porque na essência O Esquadrão Suicida é estilista e narrativamente fruto de uma mente avariada, mas com coração que pulsa por personagens como o Tubarão Rei homicida e fofo Nanaue, que, mesmo tendo uma capacidade cerebral limitada, só devora quem merece. Porque, no final das contas, o longa tem os deslizes típicos das adaptações de HQ, a megalomania, mas os personagens estão sempre no centro, o que torna a aventura desenfreada em algo orgânico e que serve bem ao público ao qual se destina.

Um grande momento
O resgate de Rick Flag

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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