Crítica | Festival

A Princesa da Yakuza

Katanas na Liberdade

(Yakuza Princess, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Vicente Amorim
  • Roteiro: Vicente Amorim, Kimi Lee, L.G. Tubaldini Jr., Fernando Toste
  • Elenco: MASUMI, Tsuyoshi Ihara, Jonathan Rhys Meyers, Kenny Leu, Lucas Oranmian, Eijiro Ozaki, Charles Paraventi, Mariko Takai, Toshiji Takeshima, Nicolas Trevijano
  • Duração: 111 minutos

Falem o que quiserem, esperneiem o quanto desejarem, com todo o respeito ao que foi feito por Afonso Poyart, Tomás Portella, Andrucha Waddington, Gustavo Bonafé e José Eduardo Belmonte nessa seara, Vicente Amorim vem se destacando no ainda novo cinema de ação no Brasil. Depois do seu terror sob duas rodas Motorrad e do policial pegado A Divisão, ele chega com o novo A Princesa da Yakuza. Exibido no 25° Fantasia International Film Festival, o filme estreia dia 3 de setembro nos cinemas dos Estados Unidos. 

O longa é uma adaptação da premiada HQ “Samurai Shirô”, de Danilo Beyruth, e conta a história de Akemi, uma jovem que vê sua vida se transformar quando um homem sem memória aparece com uma katana do seu passado. Com ele vêm também membros da Yakuza que passam a caçar os dois pela cidade de São Paulo. Os fatos não são entregues de pronto e se algumas coisas conseguimos antecipar, outras só descobrimos junto com a protagonista. 

Yakuza Princess
Photo courtesy of Magnet Releasing

A estrutura segue aquela que já vimos antes em animes e filmes de ação da máfia japonesa. O banho de sangue em uma grande reunião, seja da “família” ou da família, é a justificativa para o começo de algo muito maior no futuro. Em A Princesa da Yakuza há o deslocamento do Japão, já que a herdeira sobrevivente do massacre tinha que estar muito bem escondida. Ela é mandada para o Brasil, para o bairro da Liberdade, onde leva uma vida bem cliché: treina com seu sensei, trabalha numa banca de importados e se diverte com a amiga no karaokê.

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É nesse cotidiano que estão as pistas tanto do roteiro, que vai indicando os próximos passos ou mesmo esclarecendo o espectador sobre o passado da herdeira da Yakuza e aqueles que estão com ela, quanto da demonstração de Amorim com a ação. Sequências de muita adrenalina — e com um gosto especial para as minas — são filmadas dentro de um karaokê e do apartamento de Azumi. São Paulo, com toda sua multiplicidade, é uma parte importante da narrativa e se integra visualmente a ela. Aliás, todo esse jogo de transições entre ambientes, da frieza de um à intensidade do outro, do neon ao candeeiro é incrível. O mérito é do diretor de fotografia Gustavo Hadba, parceiro antigo de Amorim, que também já assinou filmes como Acqua Movie e Veneza

Yakuza Princess
Photo courtesy of Magnet Releasing

O longa mistura elementos do Brasil, Japão e Estados Unidos desde os idiomas e lugares, a posturas, códigos e, óbvio, referências. O elenco conta com a cantora MASUMI como a protagonista, Jonathan Rhys Meyers (da série The Tudors), Tsuyoshi Ihara (que já trabalhou com Amorim em Corações Sujos), André Ramiro (Tropa de Elite) e Charles Paraventi (Carandiru). A arte, assinada por Daniel Flaksman, que também esteve na equipe de Corações Sujos e de Trinta e O Rastro, faz um trabalho competente ao encontrar semelhanças e destacar diferenças. O oásis japonês, por exemplo, impressiona.

Mas é mesmo na ação que o A Princesa da Yakuza ganha os pontos que precisava ganhar. As cenas se aproveitam de todas as estruturas e de qualquer elemento cênico disponível para criar tensão. Das lutas mais simples às mais elaboradas, há sempre muito cuidado gráfico e algumas delas são deleites para os amantes do gênero, como a tentativa de vingança dos covardes do karaokê. Golpes, escadas, portas, mobílias, armas de fogo, katanas e o que mais aparecer pela frente são elementos deste que é um dos melhores embates do filme.

Yakuza Princess
Photo courtesy of Magnet Releasing

E Amorim ainda vai para outros lugares, traz figuras do passado, restabelece conexões, questiona outras e se desfaz de muitas coisas pelo caminho. O roteiro se perde vez por outra, é um fato, e há momentos em que o ritmo não consegue se manter, talvez porque haja uma má distribuição da ação. Há ainda um certo desacerto na atuação de MASUMI , que ora convence, ora não passa muita segurança.

Mas A Princesa da Yakuza diverte, isso sem dúvida nenhuma. E tem sequências que vão fazer qualquer admirador de filmes de ação deliciar-se com a produção que é mais um passo de Amorim rumo à solidificação de seu nome como um dos melhores do gênero no país. Que este abra caminho para que muitos e muitos outros venham a seguir, com elementos de várias outras culturas. Já que todas estão aqui mesmo…

Um grande momento
A vingança do karaokê

[25º Fantasia International Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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